Novembro 05 2009

FASES LITERÁRIAS DE ÁLVARO DE CAMPOS

 

 

Com algumas composições iniciais que algo devem ao Decadentismo (Opiário), Álvaro de Campos é, sobretudo, o futurista da exaltação da energia até ao paroxismo, da velocidade e da força da civilização mecânica do futuro, patentes na Ode Triunfal. É o único heterónimo que reconhece uma evolução ("Fui em tempos poeta decadente; hoje creio que estou decadente, e já o não sou"). Passa por três fases: a decadentista, a futurista e sensacionista e, por fim, a intimista.

 

 

1ª FASE: DECADENTISTA

 

 

Esta fase poética traduz-se por sentimentos de tédio, enfado, náusea, cansaço, abatimento e necessidade de novas sensações. Tal é o reflexo da falta de um sentido para a vida e a necessidade de fuga à monotonia. Esta fuga era feita habitualmente à base de estupefacientes, como era o caso do ópio. Um dos poemas mais exemplificativos desta fase é o Opiário, escrito por Fernando Pessoa em 1915 para o primeiro número do Orpheu, todavia, foi datado de Março de 1914 para documentar, mistificando, uma primeira fase de Campos.

 

 

2ª FASE: FUTURISTA E SENSACIONISTA

 

 

A fase futurista-sensacionista assenta numa poesia repleta de vitalidade, manifestando o poeta a predilecção pela civilização mecânica, pelo belo feroz que virá contrariar a concepção aristotélica de belo ("Escrevo rangendo os dentes, fera para a beleza disto, / Para a beleza disto totalmente desconhecida dos antigos". - Ode Triunfal).

Após a descoberta do futurismo (de Marinetti) e do sensacionismo (de Walt Whitman), Campos adoptou, para além do verso livre, um estilo esfuziante, torrencial, espraiado em longos versos de duas ou três linhas, anafórico, exclamativo, interjectivo, monótono pela simplicidade dos processos, pela reiteração de apóstrofes e enumerações, mas vivificado pela fantasia verbal duradoura e inesgotável.

Álvaro de Campos, além de celebrar o triunfo da máquina, da energia mecânica e da civilização moderna, canta também os escândalos e corrupções da contemporaneidade, em sintonia com o futurismo. O ideal futurista em Álvaro de Campos fá-lo distanciar-se do passado para exaltar a necessidade de uma nova vida futura, onde se tenha a consciência da sensação do poder e do triunfo.

Esta fase também está marcada pela intelectualização das sensações ou pela sua desordem. Como verdadeiro sensacionista, procura o excesso violento de sensações à maneira de Walt Whitman. Contudo, o seu sensacionismo distingue-se do seu mestre Alberto Caeiro, na medida em que este considera a sensação captada pelos sentidos como a única realidade, mas rejeita o pensamento. O mestre, com a sua simplicidade e serenidade, via tudo nítido e recusava o pensamento para fundamentar a sua felicidade por estar de acordo com a Natureza; já Campos, sentindo a complexidade e a dinâmica da vida moderna, procura sentir a violência e a força de todas as sensações ("sentir tudo de todas as maneiras").

O poema Ode Triunfal exemplifica claramente esta fase poética do heterónimo Álvaro de Campos. O título sugere logo qualquer coisa de grandioso, não só no conteúdo como na forma. A irregularidade métrica e estrófica, típicas da poesia modernista, afastam logo o poema da lírica tradicional portuguesa. Este ritmo irregular traduz a irreverência e o nervosismo do próprio poeta. A nível estilístico, sobressaem inúmeras metáforas, comparações, imagens, apóstrofes, anáforas (entre outras), a fim de realçar o sensacionismo de Campos.

Há que destacar que nem tudo é entusiasmo nesta ode. Assim, logo no início, o poeta escreve "À dolorosa luz das grandes lâmpadas eléctricas da fábrica" e tem "febre". Ao longo do texto há um desfilar irónico dos escândalos da época: a desumanização, a hipocrisia, a corrupção, a miséria, a pilhagem, os falhanços da técnica (desastres, naufrágios), a prostituição de menores, entre outros. O poeta tanto manifesta o desejo de humanizar as máquinas, através das apóstrofes ("Ó rodas, ó engrenagens, ó máquinas!..."), como também de se materializar ao identificar-se com elas ("Ah! poder eu exprimir-me como um motor se exprime! Ser completo como uma máquina!").

O mais surpreendente no poema é que, depois de o poeta ironizar os ridículos da sociedade moderna, ele identifica-se com eles ao exprimir ("Ah, como eu desejava ser o souteneur disto tudo!“).

 

 

3ª FASE: INTIMISTA

 

 

Esta fase caracteriza-se por uma incapacidade de realização, trazendo de volta o abatimento. O poeta vive rodeado pelo sono e pelo cansaço, revelando desilusão, revolta, inadaptação, devido à incapacidade das realizações. Após um período áureo de exaltação heróica da máquina, Álvaro de Campos é possuído pelo desânimo e frustração. Parece apresentar pontos comuns com a 1.ª fase - a decadentista -, contudo, há que sublinhar que a intimista traduz a reflexão interior e angustiada de quem apenas sente o vazio depois da caminhada heróica.

Segundo Jacinto do Prado Coelho, este Campos decaído, cosmopolita, melancólico, devaneador, irmão do Pessoa ortónimo no cepticismo, na dor de pensar e nas saudades da infância ou de qualquer coisa irreal, é o único heterónimo que comparticipa da vida extraliterária de Fernando Pessoa, afirmando o próprio "eu e o meu companheiro de psiquismo Álvaro de Campos".

Em Lisbon revisited (1923), o poeta debate-se com a inexorabilidade da morte, desejando até morrer ("Não me venham com conclusões! / A única conclusão é morrer."). Todo o poema é disfórico, daí a acumulação de construções negativas. Recusa a estética, a moral, a metafísica, as ciências, as artes, a civilização moderna, apelando ao direito à solidão, apontando a infância como símbolo da felicidade perdida ("Ó céu azul - o mesmo da minha infância - / Eterna verdade vazia e perfeita!").

Nesta fase, Campos sente-se vazio, um marginal, um incompreendido ("O que há em mim é sobretudo cansaço -"; "Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles: / Porque eu amo infinitamente o finito, / Porque eu desejo impossivelmente o possível"). A construção antitética destes versos é, sem, dúvida, o espelho do interior fragmentado do poeta.

publicado por esjapportugues12 às 15:48

Novembro 05 2009

ÁLVARO DE CAMPOS - POETA MODERNISTA

 

ASPECTOS BIOGRÁFICOS

 

  • Nasceu em Tavira, em 15 de Outubro de 1890;
  • Fez o liceu em Portugal e o curso de Engenharia na Escócia.;
  • Engenheiro naval (por Glasgow), vive em Lisboa;
  • Viajou pelo Oriente (dessa viagem resultou o Opiário);
  • Alto, magro e com tendência a curvar-se (elementos retirados da carta a Adolfo Casais Monteiro, 1935).

PERSONALIDADE LITERÁRIA

 

Poeta modernista, sensacionista, a sua poesia tem três fases: decadentista, futurista e intimista.

 

FASE DECADENTISTA:

 

- tédio e horror à vida

- “nostalgia do além”

- “embriaguez do ópio e dos sonhos”

- fuga à monotonia

 

FASE FUTURISTA:

 

- exaltação da civilização mecânica e industrial

- procura de sensações fortes e modernas

- “apologia de um novo homem, isento de dor, livre”

 

FASE INTIMISTA:

 

- reminiscências do mundo fantástico da infância

- solidão interior, angústia existencial - cepticismo e dor de pensar

- tédio, náusea, desencontro consigo mesmo e com os outros

- fragmentação interior

 

LINHAS TEMÁTICAS:

 

  • Predomínio da emoção espontânea e torrencial;
  • Elogio da civilização industrial, moderna, da velocidade e das máquinas, da energia e da força, do progresso;
  • Poeta virado para o exterior, tenta banir o vício de pensar e acolhe todas as sensações (segundo a lição do seu Mestre Caeiro);
  • Ansiedade e confusão emocional; angústia existencial, sentido do absurdo;
  • Tédio, náusea, desencontro com os outros;
  • Presença terrível e labiríntica do Eu de que o poeta se tenta libertar;
  • Fragmentação do Eu, perda de identidade;
  • Excitação da procura, da busca incessante.

 

ARTE POÉTICA DE ÁLVARO DE CAMPOS:

 

  • Presença de um estilo biográfico;
  • Verso: decassílabos agrupados em quadras (Opiário);
  • Verso livre, longo;
  • Estilo esfuziante, torrencial, dinâmico;
  • Estilo exclamativo, anafórico, interjectivo, com recurso às apóstrofes e enumerações;
  • Comparações, metáforas e antíteses arrojadas.

 

ÁLVARO DE CAMPOS É:

 

  • o sensacionista das grandes odes à civilização moderna com todas as emoções que contém;
  • o cultor das sensações sem limite - "Ah não ser eu toda a gente e toda a parte!";
  • o poeta da energia, da velocidade e das máquinas, da vitalidade e do progresso;
  • o modernista por excelência, que concebe a arte assente na ideia de força, do ímpeto, da fúria e da emoção espontânea;
  • o poeta de estilo impetuoso, febril e do verso torrencial e livre.
publicado por esjapportugues12 às 15:31

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