Novembro 13 2009

TEXTO EXPOSITIVO-ARGUMENTATIVO

 

 

 


 

A produção de um texto expositivo-argumentativo visa avaliar competências como a compreensão de enunciados escritos e a expressão escrita, visíveis na construção de um texto que pressupõe a compreensão da tese formulada no enunciado, a exposição de uma opinião e a selecção de argumentos, bem como a produção de um discurso correcto e bem estruturado. Este texto deverá revelar uma análise crítica e pessoal do enunciado da pergunta, reflectindo o conhecimento que possui da obra, do autor, do período literário ou do tema em causa.


COMO ELABORAR UM TEXTO EXPOSITIVO ARGUMENTATIVO?

 

 

- Ler atentamente o enunciado contido na questão formulada (normalmente é a citação de uma obra ou uma simples afirmação) e identificar de imediato o autor, a obra e o movimento literário que servirá de base à argumentação, ou o tema genérico a explorar;

 

- Planear a estrutura do texto: clarificar o ponto de vista, seleccionar os tópicos a desenvolver ao longo do texto a produzir, devidamente encadeados, para evitar repetições e incoerências;

 

- Comprovar cada argumento com exemplos concretos e bem fundamentados na obra do autor ou com exemplos significativos relacionados com o tema em reflexão;

 

- Proceder à redacção do texto, começando por uma breve introdução do tema, desenvolver a argumentação, articulando bem os parágrafos e, no final, como conclusão, sintetizar as ideias centrais apresentadas;

 

- Utilizar um vocabulário diversificado e preciso e um correcto registo de língua.


COTAÇÃO (exame nacional)

 

 

Na prova de exame, o texto expositivo-argumentativo é avaliado, tendo em conta as seguintes competências:

 

 Estruturação de um texto com recurso a estratégias adequadas à defesa de um ponto de vista, sem desvios ao tema proposto;

 

 Elaboração de um texto coerente e coeso, com argumentos lógicos bem articulados e devidamente suportados por exemplos significativos (deve atentar-se no número de argumentos pedidos e respectivos exemplos);


 Redacção de um discurso bem estruturado (introdução, desenvolvimento, conclusão), com recurso a conectores frásicos adequados e diversificados;

 

 Produção de um discurso correcto nos planos lexical, morfológico, sintáctico, ortográfico e de pontuação, com marcação correcta dos parágrafos e respeito pelo limite de palavras.


 

 

EXERCÍCIO PRÁTICO 1

 

 

 

“Reis […] manifesta uma aguda mas estóica sensibilidade em relação ao tema da passagem do tempo.”
 

 

Maria Alzira Seixo, Singularidades de uma Literatura Ocidental, Asa, 2001


Considere o juízo crítico apresentado e comente-o, fundamentando-o na sua experiência de leitor. Redija um texto expositivo-argumentativo bem estruturado, de duzentas a trezentas palavras.

 

 

 

Tópicos a desenvolver:

 

• Dor da efemeridade da vida;
• Consciência do poder implacável do destino (fatum);
• Defesa de uma filosofia de vida estóico-epicurista;
• Aceitação e consciência da subordinação do Homem face ao fatum;
• O carpe diem e a mágoa profunda, mas serena, resultante dessa consciência.


Produção de um texto expositivo-argumentativo

 

 

Ricardo Reis reconhece a inexorabilidade da passagem do tempo, tendo plena consciência da dor provocada pela natureza efémera do homem.

 

Consciente do poder implacável do Destino (fatum), que condiciona a existência humana como uma mera passagem, tendo como fim a morte - «passamos como um rio» -, Reis é defensor de uma filosofia de vida estóico-epicurista, capaz de conduzir o homem numa existência sem inquietações e sem angústias, e aceita o destino que lhe é imposto, contentando-se em gozar a vida moderadamente e através do exercício da razão. Para tal, sugere um esforço de autocontrolo que evite as paixões que acarretam sofrimento. Vivendo o momento presente e acreditando no poder da razão, transfigura-se a emoção em indiferença «sem amores, sem ódios, nem paixões que levantem a voz», deixando fluir o tempo, cuja passagem é simbolizada pela passagem das águas do rio.

 

Como só o momento presente nos pertence, cabe ao homem viver esse momento (carpe diem) e, por esse motivo, Reis revela na sua poesia a profunda e serena mágoa, resultante da consciência do poder devorador do tempo.
Dado que «Amanhã não existe», Ricardo reis consegue a felicidade pela ataraxia - «mais vale saber passar silenciosamente / e sem desassossegos grandes» - e pela aceitação da morte e do destino - «nada, salvo o desejo de indif’rença / E a confiança mole / na hora fugidia». (226)


 

 

 

EXERCÍCIO PRÁTICO 2

 


Num texto bem estruturado, com um mínimo de duzentas palavras e um máximo de trezentas palavras, apresente uma reflexão sobre as ideias expressas no excerto a seguir transcrito, relativas à tendência para se investir no espaço pessoal e se esquecer o espaço público. Para fundamentar o seu ponto de vista, recorra, no mínimo, a dois argumentos, ilustrando cada um deles com, pelo menos, um exemplo significativo.

 


“Ao longo da vida, a tendência é para as pessoas passarem cada vez mais tempo sozinhas e fechadas dentro das suas casas, transformadas em verdadeiras «torres de marfim». A maneira como se acumulam bens físicos e se procura melhorar os espaços domésticos reflecte um cada vez maior alheamento em relação ao espaço público colectivo, que raramente é pensado como um bem comum.”

 

Teresa Alves, “Territórios do Nada entre a Esperança e a Utopia”, 2002

 

 

 

Produção de um texto expositivo-argumentativo

 

 


A tendência para se investir no espaço pessoal em detrimento do espaço público tem vindo a aumentar nas sociedades modernas. Antigamente, as pessoas viviam mais abertas ao outro, o tempo que passavam em conjunto era muito maior e existia o café, o largo, a igreja, como pontos de encontro de final de dia para todos conviverem e se encontrarem. Todos se conheciam e o outro funcionava como um escape, um suporte.

 

Com o êxodo rural e com a migração para as grandes cidades, a par do crescimento tecnológico, tudo se foi alterando. A televisão, por exemplo, fazia com que todos se encontrassem no café mais abastado para visionarem os programas emitidos pela «caixinha mágica». Gradualmente, todas as casas foram tendo o seu próprio aparelho, o que resultou num afastamento. O serão já não era passado na colectividade, mas na individualidade de cada lar. E assim tem sido, cada vez mais as pessoas vivem entregues a si próprias: recheiam-se as casas com o mais moderno dos equipamentos, há um investimento consumista para optimizar o espaço individual, porque deixou de haver tempo e necessidade de estar com outras pessoas. Cada um, pelas exigências da vida moderna, passou a ser auto-suficiente. E isto reflectiu-se em alheamento relativamente aos espaços públicos colectivos: cada um deixou de sentir como seu um espaço que já não frequenta, logo, não cuida, não investe nele, simplesmente porque não o utiliza. Até mesmo as crianças, que brincavam em conjunto nos parques infantis ou nos campos de jogos deixaram de o fazer, porque ficam confinadas, sozinhas, frente ao computador ou à Playstation.

 

Em suma, já ninguém reivindica a criação ou a melhoria dos espaços públicos, porque eles foram substituídos pela nossa casa, onde temos todo o sossego e conforto. (289)

 

publicado por esjapportugues12 às 11:05

Novembro 12 2009

GÉNESE I CONTEXTUALIZAÇÃO I CARÁCTER ÉPICO-LÍRICO DA OBRA

 

 

 

 

A Mensagem, publicada em 1934, é uma colectânea que reúne poemas de carácter nacionalista e sebastianista. Na opinião do poeta, havia-se perdido a identidade nacional, os feitos heróicos perderam-se com o tempo e só já restava a sua memória. Então, nada melhor que recuperar um mito para fazer ressurgir das cinzas uma nação ("O mito é o nada que é tudo", em "Ulisses").

Pessoa acreditava no destino messiânico de Portugal e acreditava também que o saudosismo que preenchia os corações dos portugueses poderia ser o ponto de partida, a motivação para a tentativa de recuperação de uma imagem pátria que morrera com o passado.

 

Camões cantara os feitos heróicos dos portugueses, na época dos Descobrimentos; Fernando Pessoa pretendeu essencialmente enobrecer a glória que está subjacente à realização dos acontecimentos que engrandeceram a História nacional. Nesta obra, são enunciados factos históricos, exaltados de uma maneira que faz ecoar a epopeia, contudo, sentidos por um "eu" que impregna os poemas de uma subjectividade misturada de uma simbologia que não permite uma interpretação ingénua dos mesmos. Assim, a Mensagem, apesar de possuir um carácter lírico, apresenta uma faceta épica, carácter épico-lírico, diferente da de Camões (que cantava os feitos gloriosos de um herói), pois o poeta modernista enaltece a heroicidade do ser humano, através da espiritualização progressiva, tirando partido do mito sebastianista. Através do sonho, poder-se-ia construir um império perfeito e espiritual que teria como finalidade a construção da paz universal.

 

A hipótese de salvação e regeneração que D. Sebastião representa para o povo português é a base desta obra, pois é a partir do mito que se deve tentar transformar a realidade. Já aquando da sua participação na revista A Águia, Fernando Pessoa se revelava sebastianista, prevendo até o aparecimento de um Super-Camões, cantor do Quinto Império, que seria um Super-Portugal. Este Quinto Império, já vaticinado por Padre António Vieira, profeta e visionário, não se trata de um império terreno, mas sim espiritual. Pessoa opõe ao sebastianismo passadista e tradicional um outro para o futuro, concretamente virado para a construção de um império da língua e cultura portuguesas ("Minha pátria é a língua portuguesa.”).

 

O que Fernando Pessoa realiza, através da Mensagem, é um apelo para que se entenda que os feitos do passado não se extinguiram - na sua essência, existe uma força propulsora cujo dinamismo é a própria natureza humana, que se projecta sempre que há um ideal (“Deus quer, o homem sonha, a obra nasce”, em “O Infante”).

A literatura, para o poeta, assumia um papel importantíssimo, capaz de influenciar várias épocas e transmitir civilização. Como tal, o autor da Mensagem acreditava que, através da sua produção literária, realizaria o seu grande objectivo: arrancar Portugal do século XX da estagnação que o caracterizava, lançando no país a agitação que permitiria ao português sentir novamente a ânsia da sua grandeza esquecida e vivida numa nostalgia sem brilho nem esperança. O importante é ser-se genuíno e que, como os portugueses do século XV; se contribua para a construção de um império unificador e cultural que se encontra para além do material A missão dos portugueses ainda não está cumprida, isto é, a conquista do mar não foi suficiente; há que sonhar novamente para se cumprir Portugal (“Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez. / Senhor, falta cumprir-se Portugal!”, em “O Infante”). 

 

 

 

 

A Mensagem encontra-se dividida em três partes, cada uma delas subdividida noutras. Esta tripartição é simbólica e tem como base o facto de as profecias se realizarem três vezes, ainda que de modo e tempos diferentes. Corresponde à evolução do Império Português que, tal como o ciclo da vida, passa pelo nascimento, realização e morte. Todavia, esta morte não poderá ser entendida como um fim definitivo, visto que a morte pressupõe uma ressurreição. Esta ressurreição culmina com o aparecimento de um novo império, desta vez não terreno, mas sim espiritual e cultural, a fim de atingir a paz universal ("E a nossa grande Raça partirá em busca de uma índia nova, que não existe no espaço, em naus que são construídas daquilo de que os sonhos são feitos" - Fernando Pessoa).

 

Fernando Pessoa, que desejava ser um criador de mitos, apela ao mito sebastianista, à vinda de um messias que viria cumprir Portugal. Assim, o Encoberto (D. Sebastião) foi o escolhido para realizar o sonho do Quinto Império. Esta tarefa só seria cumprida com muita determinação, loucura e sonho que tão bem caracterizam D. Sebastião ("Louco, sim, louco, porque quis grandeza", em “D. Sebastião, Rei de Portugal”).

Cada uma das partes da Mensagem começa com uma expressão latina, adequada à parte simbólica a que pertence. Fernando Pessoa inicia a obra com a expressão latina Benedictus Dominus Deus noster que dedit nobis signum ("Bendito o Senhor Nosso Deus que nos deu o sinal") que nos remete para o carácter simbólico e messiânico da Mensagem

 

 

 

A 1ª parte - BRASÃO - faz desfilar os heróis lendários ou históricos, desde Ulisses a D. Sebastião, ora invocados pelo poeta, ora definindo-se a si próprios. O poeta começa por fazer a localização de Portugal na Europa e em relação ao Mundo, salientando a sua magnitude; apresenta a definição de mito (de modo paradoxal, pois "O mito é o nada que é tudo"), realçando o seu valor na construção da realidade; apresenta ainda o povo português como o construtor do império marítimo, assim como revela os predestinados, responsáveis pela construção do país.

 

 

 

A 2ª parte - MAR PORTUGUÊS - apresenta poesias inspiradas na ânsia do Desconhecido e no esforço heróico da luta com o Mar. É nesta parte que o poeta salienta a grandeza do sonho convertido em acção, unificando o acto humano e o Destino traçado por Deus. Surge à cabeça desta parte o poema "O Infante", para vincar a relação entre o poder de Deus na criação, o Homem como agente intermediário e a obra como resultado de toda esta relação lógica ("Deus quer, o homem sonha, a obra nasce"). Os outros poemas evocam as glórias e as tormentas passadas ao concretizar-se o sonho dos Descobrimentos.

 

 

A 3ª parte - O ENCOBERTO - apresenta o actual Império moribundo, Portugal baço "a entristecer", pois "Tudo é incerto e derradeiro. / Tudo é disperso, nada é inteiro." (“Nevoeiro”). Face a esta constatação, o poeta considera que chegou a hora de despertarmos para a nossa missão: a constituição de um Quinto Império, um reino de liberdade de espírito e de redenção (“Ó Portugal, hoje és nevoeiro... / É a Hora! ", em "Nevoeiro"). A Mensagem termina com a expressão latina Valete Fratres ("Felicidades, irmãos"), um grito de felicidade e um apelo para que todos lutem por um novo Portugal.

publicado por esjapportugues12 às 14:48

Novembro 09 2009

O ESSENCIAL SOBRE RICARDO REIS

 

 

 

 

Ricardo Reis é o poeta clássico, da serenidade epicurista, que aceita, com calma lucidez, a relatividade e a fugacidade de todas as coisas. "Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio", "Prefiro rosas, meu amor, à pátria" ou " Segue o teu destino” são poemas que nos mostram que este discípulo de Caeiro aceita a antiga crença nos deuses, enquanto disciplinadora das nossas emoções e sentimentos, mas defende, sobretudo, a busca de uma felicidade relativa alcançada pela indiferença à perturbação.

 

A filosofia de vida de Ricardo Reis é a de um epicurismo triste, pois defende o prazer do momento, o "carpe diem", como caminho da felicidade, mas sem ceder aos impulsos dos instintos. Apesar deste prazer que procura e da felicidade que deseja alcançar, considera que nunca se consegue a verdadeira calma e tranquilidade, ou seja, a ataraxia (a tranquilidade sem qualquer perturbação). Sente que tem de viver em conformidade com as leis do destino, indiferente à dor e ao desprazer, numa verdadeira ilusão da felicidade, conseguida pelo esforço estóico lúcido e disciplinado.

 

Ricardo Reis propõe, pois, uma filosofia moral de acordo com os princípios do epicurismo e uma filosofia estóica:

 "carpe diem", ou seja, aproveitai a vida em cada dia, como caminho da felicidade;

 buscar a felicidade com tranquilidade (ataraxia);

 não ceder ao impulso dos instintos (estoicismo);

 procurar a calma ou, pelo menos, a sua ilusão;

 seguir o ideal ético da apatia que permite a ausência da paixão e a liberdade (sobre esta apenas pesa o Fado).

 

O epicurismo consiste na filosofia moral de Epicuro (341-270 a. C.), que defendia o prazer como caminho da felicidade. Mas, para que a satisfação dos desejos seja estável, sem desprazer ou dor, é necessário um estado de ataraxia. O poeta romano Horácio seguiu de perto este pensamento da defesa do prazer do momento, ao considerar o "carpe diem" (aproveitai o dia) como necessário à felicidade.

 

O estoicismo é uma corrente filosófica que considera ser possível encontrar a felicidade desde que se viva em conformidade com as leis do destino que regem o mundo, permanecendo indiferente aos males e às paixões, que são perturbações da razão. O ideal ético é a apatia, que se define como ausência de paixão e permite a liberdade, mesmo sendo escravo.

 

Ricardo Reis, que adquiriu a lição de paganismo espontâneo de Caeiro, cultiva um neoclassicismo neopagão (crê nos deuses e nas presenças quase-divinas que habitam todas as coisas), recorrendo à mitologia greco-latina, e considera a brevidade, a fugacidade e a transitoriedade da vida, pois sabe que o tempo passa e tudo é efémero. Daí fazer a apologia da indiferença solene diante do poder dos deuses e do destino inelutável. Considera que a verdadeira sabedoria de vida é viver de forma equilibrada e serena, "sem desassossegos grandes".

 

A precisão verbal e o recurso à mitologia, associados aos princípios da moral e da estética epicuristas e estóicas ou à tranquila resignação ao destino, são marcas do classicismo erudito de Reis. Poeta clássico, da serenidade, Ricardo Reis privilegia a ode, o epigrama e a elegia. A frase concisa e a sintaxe clássica latina, frequentemente com a inversão da ordem lógica (hipérbatos), favorecem o ritmo das suas ideias lúcidas e disciplinadas.

 

 

RICARDO REIS – O POETA DA RAZÃO

 

 

Personalidade literária 

 

 

 Discípulo de Caeiro, como o Mestre aconselha a aceitação calma da ordem das coisas e faz o elogio da vida campestre, indiferente ao social.

 Faz dos Gregos o modelo da sabedoria (aceitação do Destino de uma forma digna e altiva).

 Tem consciência da dor provocada pela natureza precária do homem. Tem medo da velhice e da morte.

 Crê no Fado (destino), na efemeridade da vida e do tempo.

 Faz o elogio do epicurismo (tendência para a felicidade pela harmonização de todas as faculdades através da disciplina). Os epicuristas procuram o repouso, a ataraxia (ausência de perturbação) e da aponia (ausência de dor) e gozam em profundidade o dia presente (Carpe Diem).

 Faz o elogio do estoicismo. Os estoicistas renunciam aos prazeres, não se apegam demasiado ao momento presente, procurando o sossego, pela renúncia, a indiferença, aceitando voluntariamente um destino involuntário.

 A sabedoria consiste em gozar o presente (Carpe Diem) através de um exercício da razão.  É austero (no sentido clássico do termo), contido, disciplinado, inteligente.

 Neoclassicista formal e ideológico, moralista, epicurista e estóico. É o poeta da razão e da intelectualização das emoções.

 Subordinação do sentimento à razão; repúdio da confusão entre ideias e emoções.

 Paganismo (atitude assumida perante o mundo e que consiste em aceitar qualquer religião e a existência de deuses em tudo e em todas as coisas).

 

 

Arte poética

 

 

 Dramatização do pensamento que condensa na “Ode” (composição poética, para ser cantada, dividida em estrofes simétricas).

 Monólogos estáticos, frequente utilização do hipérbato e de latinismos.

 Objectividade e rigor formal.

 Irregularidade métrica.

 Importância dada ao ritmo como unidade de sentido.

 Gosto pelo uso do gerúndio.

 Uso frequente do imperativo (em consonância com a feição moralista das suas odes).

 Estilo laboriosamente construído, pensado.

publicado por esjapportugues12 às 12:55

Novembro 09 2009

RICARDO REIS – PERFIL LITERÁRIO

 

 

Na carta a Adolfo Casais Monteiro, Pessoa afirma: "(...) Aí por 1912, salvo erro (...), veio-me à ideia escrever uns poemas de índole pagã. Esbocei umas coisas em verso irregular (...) e abandonei o caso. Esboçara-se-me, contudo, numa penumbra mal urdida, um vago retrato da pessoa que estava a fazer aquilo. (Tinha nascido, sem que eu soubesse, o Ricardo Reis)".

 

Apesar de anterior a Caeiro, o novo heterónimo pessoano só surge depois da necessidade de arranjar uns discípulos para o mestre. Ricardo Reis é arrancado “do seu falso paganismo (…) porque nessa altura já o via”. Mais adiante Pessoa diz: “Ricardo Reis nasceu em 1887 (…), no Porto, é médico e está presentemente no Brasil” (por ser monárquico); é “latinista por educação alheia, e um semi-helenista por educação própria”.

 

 

O NEOPAGANISMO

 

 

O paganismo de Reis não é instintivo como o de Caeiro. O do primeiro assenta numa ideologia classicista que lhe permite elevar-se acima do cristianismo e assumir, perante este, uma atitude de desprezo. Como tal, é designado de neopaganismo. Neste sentido, este heterónimo afirma-se crente nos deuses, que estão acima dos homens, mas acima dos dois está ainda o destino (Fatum). Tenta assumir a postura dos deuses, adquirindo, através de um exercício de autodisciplina, a calma e a indiferença, face a um destino já traçado.

 

A poesia de Ricardo Reis apresenta um tom moralista. Nela revela-se um estilo sentencioso, cheio de conselhos morais e de apelo constante à indiferença, factores que lhe conferem um intenso dramatismo e fatalismo (sendo este traçado pelo destino que atribui ao homem uma vida efémera). A herança clássica do poeta revê-se no recurso à ode bem como à mitologia. Preconizado é o regresso à Grécia antiga, por ser considerada um modelo de perfeição. Reis acredita na liberdade concedida pelos deuses ("Só esta liberdade nos concedem / Os deuses...") e propõe que os imitemos ("Nós, imitando os deuses, (...) / Ergamos a nossa vida / E os deuses saberão agradecer-nos / O sermos tão como eles").

 

 

O EPICURISMO E O ESTOICISMO

 

 

Detentor de uma dignidade sóbria, de uma perfeita clareza de ideias e de uma concepção de vida simples, o mais clássico dos heterónimos pessoanos prefere o silêncio nostálgico para enfrentar a Sorte a que os deuses o votaram.

Esta é a atitude que adopta para evitar a dor, para procurar a calma, autodisciplinar-se, nem que para isso tenha de abdicar dos prazeres da vida, tal como preconizava o estoicismo. Reis revela um comportamento reflectido e ponderado, resultante da adopção do epicurismo, que defendia que o sofrimento só pode ser evitado quando não há entrega às grandes paixões ou aos instintos profundos. O prazer, para ser estável e duradoiro, não pode resultar de sentimentos fortes, deve ser ponderado, isto é, doseado pela razão. Por isso, e para se evitarem as preocupações, deve viver-se o momento presente (Carpe diem) e acreditar no poder da razão, remetendo a emoção para a indiferença, "sem amores, nem ódios, nem paixões que levantam a voz", deixando fluir o tempo, simbolizado nas águas do rio, ou amando as rosas, que com ele se identificam pela fragilidade e transitoriedade a que estão sujeitas ("Nascem nascido já o Sol, e acabam / Antes que Apolo deixe / O seu curso visível").

Ricardo Reis procura a ataraxia, que patenteia em vários poemas, por exemplo em "Prefiro rosas, meu amor, à pátria", onde emite o desejo de que a vida não o canse ("Logo que a vida não me canse..."), ou no curto texto que se segue:

 

 

Tão cedo passa tudo quanto passa!

Morre tão jovem ante os deuses quanto

Morre! Tudo é tão pouco!

Nada se sabe, tudo se imagina.

Circunda-te de rosas, ama, bebe

E cala.O mais é nada.

 

 

A composição apresentada reflecte bem a tristeza que parece acompanhar este heterónimo pessoano e que ilustra a seriedade de um homem que se situa entre o não pensamento de Caeiro e a abulia de Fernando Pessoa e de Campos na última fase.

As linhas ideológicas presentes na poesia de Reis reflectem um homem que sofre e vive o drama da transitoriedade da vida, facto que lhe provoca sofrimento (por imaginar antecipadamente a morte). Ressalta, também, o amor à vida rústica e à natureza, a procura da perfeição, a intelectualização das emoções, facetas reveladoras de um homem lúcido e cauteloso, que procura construir uma felicidade relativa, um misto de resignação e gozo moderado, de forma a não comprometer a sua liberdade interior. Nesta linha, preconiza a fruição das coisas, sem demasiado esforço ou risco, e a aceitação de tudo, uma vez que se considera o destino mais importante do que a força humana.

Poeta da razão e defensor de um epicurismo temperado de estoicismo, Ricardo Reis acaba por se aproximar do Campos da terceira fase (abulia) e do ortónimo, pelo tom melancólico que se liberta da sua poesia.

publicado por esjapportugues12 às 12:47

Novembro 06 2009

ANÁLISE DE POEMAS DE ÁLVARO DE CAMPOS

 

FASE DECADENTISTA

 

Opiário

 

                      Ao Senhor Mário de Sá-Carneiro

 

É antes do ópio que a minh' alma é doente.

Sentir a vida convalesce e estiola

E eu vou buscar ao ópio que consola

Um Oriente ao oriente do Oriente.

 

Esta vida de bordo há-de matar-me.

São dias só de febre na cabeça

E, por mais que procure até que adoeça,

Já não encontro a mola pra adaptar-me.

 

Em paradoxo e incompetência astral

Eu vivo a vincos de ouro a minha vida,

Onda onde o pundonor é uma descida

E os próprios gozos gânglios do meu mal.

 

É por um mecanismo de desastres,

Uma engrenagem com volantes falsos,

Que passo entre visões de cadafalsos

Num jardim onde há flores no ar, sem hastes.

                        

                                                                     (excerto)

 

 

Linhas de Leitura

 

 A nostalgia do além, sugerida pelas referências ao Oriente, traduzem a saturação ou a incapacidade de integração na civilização ocidental e remetem o sujeito poético para um estado de divagação alienante e um pessimismo desistente.

 

     «Eu acho que não vale a pena ter ido ao Oriente e visto a índia e a China.»

     «Volto à Europa descontente...»

 

 A evasão através do sonho, da evocação de espaços irreais ou inexistentes, é alternada pela procura de sensações novas e extremas que só a embriaguez do ópio pode proporcionar. No entanto, a falta de vontade e de energia interior parecem anular qualquer solução que este pudesse representar.

 

    «E eu vou buscar ao ópio que consola / Um Oriente...»

    «Por isso eu torno ópio. É um remédio.»

    «Qu' ria outro ópio mais forte...»

 

 O tédio, o cansaço, a apatia, a descrença e a morbidez do sujeito poético traduzem a sua incapacidade de viver a vida, a inércia perante uma existência anuladora e monótona.

 

     «...a minh' alma é doente.»

     «Trabalhei para ter só o cansaço...»

    «E a minha mágoa de viver persiste.»

    «E ver passar a vida faz-me tédio.»

    «Não tenho personalidade alguma.»

 

 A náusea e a demissão da vida, que marcam a poesia decadentista, representam também o assumir de um fracasso pessoal.

 

     «…isto acaba mal e há-de haver (...) sangue e um revólver lá pró fim...»

     «Deixe-me estar aqui, nesta cadeira, / Até virem meter-me no caixão.»

 

 

Recursos expressivos

 

 A atitude irónica ou sarcástica:

 

    «Nasci pra mandarim de condição, / Mas falta-me o sossego, o chá e a esteira.»

    «Quantos sob a casaca característica / Não terão como eu horror à vida?»

 

 O vocabulário entre precioso e banal:

 

    «Em paradoxo e incompetência astral.»

    «...os próprios gozos gânglios do meu mal.»

    «O comissário de bordo é velhaco! Viu-me coa sueca...»

    «Que um raio as parta!»

 

 As imagens e os símbolos:

 

    «Um Oriente ao Oriente do Oriente.»

    «...vincos de ouro...»

    «...minha vida, cânfora na aurora.»

   «O absurdo, como uma flor da tal índia...»

 

 

 

FASE FUTURISTA / SENSACIONISTA

 

 

Ode Triunfal

 

À dolorosa luz das grandes lâmpadas eléctricas da fábrica

Tenho febre e escrevo.

Escrevo rangendo os dentes, fera para a beleza disto,

Para a beleza disto totalmente desconhecida dos antigos.

 

Ó rodas, ó engrenagens, r-r-r-r-r-r eterno!

Forte espasmo retido dos maquinismos em fúria!

Em fúria fora e dentro de mim,

Por todos os meus nervos dissecados fora,

Por todas as papilas fora de tudo com que eu sinto!

Tenho os lábios secos, ó grandes ruídos modernos,

De vos ouvir demasiadamente de perto,

E arde-me a cabeça de vos querer cantar com um excesso

De expressão de todas as minhas sensações,

Com um excesso contemporâneo de vós, ó máquinas!

 

Em febre e olhando os motores como a uma Natureza tropical -

Grandes trópicos humanos de ferro e fogo e força -

Canto, e canto o presente, e também o passado e o futuro -

Porque o presente é todo o passado e o futuro

E há Platão e Virgílio dentro das máquinas e das luzes eléctricas

Só porque houve outrora e foram humanos Virgílio e Platão

E pedaços do Alexandre Magno do século talvez cinquenta,

Átomos que hão-de ir ter febre para o cérebro de Ésquilo do século cem,

Andam por estas correias de transmissão e por estes êmbolos e por estes volantes,

Rugindo, rangendo, ciciando, estrugindo, ferreando,

Fazendo-me um excesso de carícias ao corpo numa só carícia à alma.

 

Ah, poder exprimir-me todo como um motor se exprime!

Ser completo como uma máquina!

                                 

                                                                       (excerto)

 

 

Linhas de Leitura

 

 

IMPORTÂNCIA DO TÍTULO

 

A palavra ode, de origem grega, significa cântico laudatório ou de exaltação de uma pessoa, instituição ou acontecimento. Com o epíteto de Triunfal, pretendeu o poeta não só vincar, mas também hiperbolizar o significado de ode, apontando para qualquer coisa de grandioso, não apenas no conteúdo, mas também na forma, imprimindo-lhe uma sugestão de força ou exagero, em nítida coerência com a estética do Futurismo / Sensacionismo.

 

 

ASSUNTO

 

Sob influência de Marinetti e Walt Whitman, a Ode Triunfal canta o triunfo da técnica, as máquinas, os motores, a velocidade, a civilização mecânica e industrial, o comércio, os escândalos da contemporaneidade... Sentir tudo de todas as maneiras é o ideal esfuziantemente revelado pelo sujeito poético, sentir tudo numa histeria de sensações, que lhe permitam identificar-se com as coisas mais aberrantes («Ah, poder exprimir-me todo como um motor se exprime!/ Ser completo como uma máquina!»).

 

DESENVOLVIMENTO DO ASSUNTO

 

 

A exaltação da civilização moderna

 

O poema começa com uma estranha iluminação de lâmpadas eléctricas. Despertando em sobressalto e em sonhos febris, o sujeito poético reconhece-se transportado para o meio de uma fábrica em actividade. O homem adoentado, enfraquecido pela febre, exposto a estes barulhos, é subitamente arrebatado pelas oscilações dos motores e a sua cabeça abrasada começa a vibrar também. Diante dos seus olhos acumula-se uma multiplicidade de impressões e todos os seus sentidos estão despertos: «Tenho os lábios secos, ó grandes ruídos modernos, / De vos ouvir demasiadamente perto, / E arde-me a cabeça de vos querer cantar com um excesso / De expressão de todas as minhas sensações...».

A fábrica aparece então como motivo inspirador para a homenagem a esta civilização moderna, que submerge o eu poético, nevrótico e fragilizado («tenho febre»; «fúria fora e dentro de mim», «meus nervos», «arde-me a cabeça»). É este universo de «lâmpadas eléctricas», «rodas», «engrenagens», «máquinas», «correias de transmissão», «êmbolos» e «volantes» que o faz sentir-se simultaneamente incomodado e atraído pela ruidosa dinâmica dos «maquinismos em fúria».

 

A vertigem das sensações

 

Estabelecendo com esta «flora estupenda, negra, artificial e insaciável» uma ligação eufórica e exaltada, o sujeito poético deixa-se seduzir vertiginosamente por um excesso de sensações que mal tem tempo de fixar na sua «mente turbulenta e encandescida». Sente-se arrebatado por um universo, onde a velocidade, a força e o progresso têm expressão e, por isso, confessa: «Nem sei se existo para dentro. Giro, rodeio, engenho-me. / Eia! sou o calor mecânico e a electricidade!». A violência de sensações fá-lo desejar «ser toda a gente e toda a parte» e limitar a si próprio e ao gozo do instante qualquer noção de temporalidade («O Momento estridentemente ruidoso e mecânico....»).

 

A temporalidade unificada

 

O fulcro do tempo é, assim, o presente, o instante em que o sujeito poético se mostra permeável a todos os estímulos da civilização mecânica e industrial, porque o presente é uma síntese do passado e do futuro («Porque o presente é todo o passado e todo o futuro...»; «Eia todo o passado dentro do presente! / Eia todo o futuro já dentro de nós!»).

 

A atracção erótica pelas máquinas

 

Esta visão excessiva e intensa do real provoca no sujeito poético um estado de quase alucinação, marcadamente sensual: «Fazendo-me um excesso de carícias ao corpo numa só carícia à alma.»; «Poder ao menos penetrar-me fisicamente de tudo isto,/ Rasgar-me todo, abrir-me completamente...»; «Amo-vos carnivoramente,/ Pervertidamente...»; «Possuo-vos como a uma mulher bela...». Esta paixão quase erótica pelas máquinas e este entusiasmo pela civilização moderna assume aspectos de um certo masoquismo sádico, que inspira no sujeito poético sensações novas e violentas, experimentadas até ao histerismo: «Atirem-me para dentro das fornalhas! / Metam-me debaixo dos comboios! / Espanquem-me a bordo de navios! / Masoquismo através de maquinismos!».

Não é estranha, por isso, não só a tendência do sujeito poético para humanizar as máquinas («Forte espasmo retido dos maquinismos em fúria!»; «Grandes trópicos humanos de ferro e fogo e força...»), como também a tentativa de ele próprio se materializar, ou tornar-se parte delas: «Ah, poder exprimir-me todo como um motor se exprime! / Ser completo como uma máquina!»; «Rugindo, rangendo, ciciando, estrugindo, ferreando...».

 

A denúncia social

 

Convém registar ainda que a força e a agressividade do sujeito poético são permanentemente quebradas pela evocação irónica do reverso da medalha da civilização industrial: a desumanização («Progressos dos armamentos gloriosamente mortíferos!»; «...injustiças, violências...»), a hipocrisia e a futilidade («...ó grandes, banais, úteis, inúteis, / Ó coisas todas modernas...»), a corrupção, os escândalos políticos e financeiros («Orçamentos falsificados!»; «Deliciosos escândalos financeiros e diplomáticos...»), os falhanços da técnica («Eh-lá grandes desastres de comboios! / Eh-lá desabamentos de galerias de minas!»), a miséria e a devassidão das multidões («Maravilhosa gente humana que vive como cães, / Que está abaixo de todos os sistemas morais...»).

A aguda sensibilidade do sujeito poético revelada na denúncia do lado negativo e desumano da civilização moderna é uma atitude literária, em que a perfeição e a força das máquinas parecem ser, afinal, compensações para os seus próprios fracassos e para a sua inadaptação, que irão marcar a última fase poética de Álvaro de Campos.

 

Recursos expressivos

 

O estilo vagabundo, paradoxal e vertiginoso deste heterónimo traduz a expressão desmedida de sensações desmedidas. À convulsa avalanche do pensamento sensacionista, corresponde a vertigem de um estilo caudaloso, torrencial e aparentemente caótico. O poema constitui, por isso, uma ruptura com a lírica tradicional, como o confirmam os seguintes aspectos:

- a irregularidade estrófica, métrica e rimática, que resulta num ritmo irregular e nervoso;

- a presença de alguns desvios sintácticos («..fera para a beleza disto...»; «Por todos os meus nervos dissecados fora...»);

- a frequência das expressões exclamativas que sublinham a emoção do sujeito perante os fenómenos da vida moderna;

- as repetições, as enumerações e as onomatopeias que constituem um processo retórico aparentemente caótico que se destina a esgotar a expressão, num estilo torrencial, em catadupa;

- o recurso a palavras desprovidas de carga poética e de índole técnica;

 

As metáforas e as imagens deste texto evidenciam a íntima relação do sujeito poético com o mundo mecânico e industrial, permitindo até a sua plena integração na civilização moderna («E arde-me a cabeça...»; «...Natureza tropical...»; «Pervertidamente enroscando a minha vista...»; «Grandes trópicos humanos de ferro e fogo e força...»; «E há Platão e Virgílio dentro das máquinas e das luzes eléctricas...»);

 

As enumerações traduzem o frenético desejo do sujeito poético de sentir tudo de todas as maneiras, registando de forma aparentemente caótica as sensações que experimenta («Desta flora estupenda, negra, artificial e insaciável!»; «Eh, cimento armado, betão de cimento, novos processos!»).

 

As anáforas expressam a sucessão caótica dos fenómenos da civilização industrial, permitindo ao sujeito poético acompanhar o seu ritmo alucinante e vigoroso («Por todos os meus nervos (...) Por todas as papilas...»; «Poder ir na vida triunfante (...) Poder ao menos penetrar-me...»; «Ó coisas todas modernas, / Ó minhas contemporâneas...» );

 

Os neologismos («parte-agente»; «quase-silêncio») e os estrangeirismos («music-halls»; «Luna-Parks»; «rails») traduzem a ligação do sujeito poético às inovações da modernidade e à universalidade do progresso técnico, assim como o vocabulário de carácter técnico («motores»; «fornalhas»; «guindastes»; «êmbolos»);

 

A adjectivação traduz o excesso de sensações que dominam o sujeito perante a modernidade («flora estupenda, negra, artificial e insaciável»; «promíscua fúria»; «rodar férreo e cosmopolita»; «giro lúbrico e lento»; «quase-silêncio ciciante e monótono»);

 

Os advérbios de modo evidenciam a atracção erótica e carnal do sujeito pelas máquinas e pela modernidade («demasiadamente»; «carnivoramente»; «pervertidamente»); As interjeições confirmam o louvor do sujeito poético à civilização mecânica e a sua contínua agitação («Ó fábricas, ó laboratórios...»; «Eh-lá hô fachadas das grandes lojas!»; «Eia túneis...»; «Ah, poder exprimir-me...);

 

As onomatopeias sugerem a tentativa do sujeito poético de imitar os sons ruidosos das máquinas, exprimindo assim o barulho e a velocidade estonteantes da vida moderna («r-r-rr»; «Hup-lá, hup-lá, hup-lá-hô»; «z-z-z-z-z-z-z»);

 

As apóstrofes confirmam o estilo laudatório do poema e a exaltação da civilização industrial («Ó rodas, ó engrenagens...»; «Ó fazendas nas montras! Ó manequins!»), tal como as exclamações («Forte espasmo retido dos maquinismos em fúria!; «Ser completo como uma máquina!»).

 

 

FASE INTIMISTA

 

 

Não, não é cansaço...

 

Não, não é cansaço...

É uma quantidade de desilusão

Que se me entranha na espécie de pensar,

É um domingo às avessas

Do sentimento,

Um feriado passado no abismo...

 

Não, cansaço não é...

É eu estar existindo

E também o mundo,

Com tudo aquilo que contém,

Com tudo aquilo que nele se desdobra

E afinal é a mesma coisa variada em cópias iguais.

 

Não. Cansaço porquê?

É uma sensação abstracta

Da vida concreta –

Qualquer coisa como um grito

Por dar,

Qualquer coisa como uma angústia

Por sofrer,

Ou por sofrer completamente,

Ou por sofrer como...

Sim, ou por sofrer como...

Isso mesmo, como...

 

Como quê?...

Se soubesse, não haveria em mim este falso cansaço.

 

(Ai, cegos que cantam na rua,

Que formidável realejo

Que é a guitarra de um, e a viola do outro, e a voz dela!)

 

Porque oiço, vejo.

Confesso: é cansaço!...

 

                              Álvaro de Campos, in Poesias, Ed. Ática

 

 

Linhas temáticas

 

 

PERCURSO EMOCIONAL DO SUJEITO POÉTICO

 

 

Nesta composição lírica, sujeito poético afirma no primeiro verso que não é cansaço aquilo que sente, reiterando essa afirmação ao longo do poema. No entanto, e talvez um pouco paradoxalmente, refere que a desilusão se lhe “entranha na espécie de pensar”, sublinha a monotonia da vida (“é a mesma coisa variada em cópias iguais”), exprime a angústia perante o mistério e a indefinição que perpassam nesse “falso cansaço”; finalmente aceita que, “porque ouve e vê”, o estado em que se encontra é de cansaço: “Confesso: é cansaço!...” Assim, pode-se afirmar que, progressivamente, o sujeito poético se deixa dominar por uma letargia, um estado de cansaço e desistência, que o afasta do mundo.

 

RELAÇÃO ENTRE O SUJEITO, O MUNDO E OS OUTROS

 

 

Há entre o sujeito poético, os outros e o mundo um distanciamento, decorrente da incapacidade de relação; o único ponto comum é o facto de todos existirem: “É eu estar existindo/ E também o mundo”. Os outros, os “cegos que cantam na rua”, são apenas aqueles que o sujeito poético observa, mas com quem não se relaciona.

 

IMPORTÂNCIA SIMBÓLICA DOS PARÊNTESES

 

 

Do ponto de vista simbólico, os parênteses constituem um momento em que o sujeito poético abandona o tom reflexivo, se volta para o exterior e o vê como um “formidável realejo”. Os parênteses são como que um oásis num texto de características claramente negativas, uma vez que é o próprio sujeito poético que lhes confere uma conotação positiva. Simbolicamente, poder-se-ia afirmar que a felicidade só é possível para quem é “cego”, ou seja, para quem não vê a verdadeira realidade do mundo.

 

FASE POÉTICA

 

 

Este poema integra-se na fase abúlica de Álvaro de Campos, pelo que revela de incapacidade de viver a vida, pelo que transmite de tédio, de uma certa desistência perante o mundo e os outros. Nada motiva o sujeito poético, nada lhe interessa, tudo se resume a um “supremíssimo cansaço”.

 

 

Recursos expressivos

 

 

A primeira estrofe inicia-se com a repetição do advérbio de negação “não” empregue numa frase reticente, o que revela uma certa indefinição. O discurso assume um tom claramente metafórico (“…domingo às avessas/Do sentimento, /Um feriado passado no abismo...”), terminando a estrofe também com uma frase reticente. O conjunto destes recursos expressivos, aliado à repetição anafórica presente nos versos dois e quatro, traduz a tentativa de definir o estado de espírito que domina o sujeito poético.

publicado por esjapportugues12 às 10:56

Novembro 05 2009

FASES LITERÁRIAS DE ÁLVARO DE CAMPOS

 

 

Com algumas composições iniciais que algo devem ao Decadentismo (Opiário), Álvaro de Campos é, sobretudo, o futurista da exaltação da energia até ao paroxismo, da velocidade e da força da civilização mecânica do futuro, patentes na Ode Triunfal. É o único heterónimo que reconhece uma evolução ("Fui em tempos poeta decadente; hoje creio que estou decadente, e já o não sou"). Passa por três fases: a decadentista, a futurista e sensacionista e, por fim, a intimista.

 

 

1ª FASE: DECADENTISTA

 

 

Esta fase poética traduz-se por sentimentos de tédio, enfado, náusea, cansaço, abatimento e necessidade de novas sensações. Tal é o reflexo da falta de um sentido para a vida e a necessidade de fuga à monotonia. Esta fuga era feita habitualmente à base de estupefacientes, como era o caso do ópio. Um dos poemas mais exemplificativos desta fase é o Opiário, escrito por Fernando Pessoa em 1915 para o primeiro número do Orpheu, todavia, foi datado de Março de 1914 para documentar, mistificando, uma primeira fase de Campos.

 

 

2ª FASE: FUTURISTA E SENSACIONISTA

 

 

A fase futurista-sensacionista assenta numa poesia repleta de vitalidade, manifestando o poeta a predilecção pela civilização mecânica, pelo belo feroz que virá contrariar a concepção aristotélica de belo ("Escrevo rangendo os dentes, fera para a beleza disto, / Para a beleza disto totalmente desconhecida dos antigos". - Ode Triunfal).

Após a descoberta do futurismo (de Marinetti) e do sensacionismo (de Walt Whitman), Campos adoptou, para além do verso livre, um estilo esfuziante, torrencial, espraiado em longos versos de duas ou três linhas, anafórico, exclamativo, interjectivo, monótono pela simplicidade dos processos, pela reiteração de apóstrofes e enumerações, mas vivificado pela fantasia verbal duradoura e inesgotável.

Álvaro de Campos, além de celebrar o triunfo da máquina, da energia mecânica e da civilização moderna, canta também os escândalos e corrupções da contemporaneidade, em sintonia com o futurismo. O ideal futurista em Álvaro de Campos fá-lo distanciar-se do passado para exaltar a necessidade de uma nova vida futura, onde se tenha a consciência da sensação do poder e do triunfo.

Esta fase também está marcada pela intelectualização das sensações ou pela sua desordem. Como verdadeiro sensacionista, procura o excesso violento de sensações à maneira de Walt Whitman. Contudo, o seu sensacionismo distingue-se do seu mestre Alberto Caeiro, na medida em que este considera a sensação captada pelos sentidos como a única realidade, mas rejeita o pensamento. O mestre, com a sua simplicidade e serenidade, via tudo nítido e recusava o pensamento para fundamentar a sua felicidade por estar de acordo com a Natureza; já Campos, sentindo a complexidade e a dinâmica da vida moderna, procura sentir a violência e a força de todas as sensações ("sentir tudo de todas as maneiras").

O poema Ode Triunfal exemplifica claramente esta fase poética do heterónimo Álvaro de Campos. O título sugere logo qualquer coisa de grandioso, não só no conteúdo como na forma. A irregularidade métrica e estrófica, típicas da poesia modernista, afastam logo o poema da lírica tradicional portuguesa. Este ritmo irregular traduz a irreverência e o nervosismo do próprio poeta. A nível estilístico, sobressaem inúmeras metáforas, comparações, imagens, apóstrofes, anáforas (entre outras), a fim de realçar o sensacionismo de Campos.

Há que destacar que nem tudo é entusiasmo nesta ode. Assim, logo no início, o poeta escreve "À dolorosa luz das grandes lâmpadas eléctricas da fábrica" e tem "febre". Ao longo do texto há um desfilar irónico dos escândalos da época: a desumanização, a hipocrisia, a corrupção, a miséria, a pilhagem, os falhanços da técnica (desastres, naufrágios), a prostituição de menores, entre outros. O poeta tanto manifesta o desejo de humanizar as máquinas, através das apóstrofes ("Ó rodas, ó engrenagens, ó máquinas!..."), como também de se materializar ao identificar-se com elas ("Ah! poder eu exprimir-me como um motor se exprime! Ser completo como uma máquina!").

O mais surpreendente no poema é que, depois de o poeta ironizar os ridículos da sociedade moderna, ele identifica-se com eles ao exprimir ("Ah, como eu desejava ser o souteneur disto tudo!“).

 

 

3ª FASE: INTIMISTA

 

 

Esta fase caracteriza-se por uma incapacidade de realização, trazendo de volta o abatimento. O poeta vive rodeado pelo sono e pelo cansaço, revelando desilusão, revolta, inadaptação, devido à incapacidade das realizações. Após um período áureo de exaltação heróica da máquina, Álvaro de Campos é possuído pelo desânimo e frustração. Parece apresentar pontos comuns com a 1.ª fase - a decadentista -, contudo, há que sublinhar que a intimista traduz a reflexão interior e angustiada de quem apenas sente o vazio depois da caminhada heróica.

Segundo Jacinto do Prado Coelho, este Campos decaído, cosmopolita, melancólico, devaneador, irmão do Pessoa ortónimo no cepticismo, na dor de pensar e nas saudades da infância ou de qualquer coisa irreal, é o único heterónimo que comparticipa da vida extraliterária de Fernando Pessoa, afirmando o próprio "eu e o meu companheiro de psiquismo Álvaro de Campos".

Em Lisbon revisited (1923), o poeta debate-se com a inexorabilidade da morte, desejando até morrer ("Não me venham com conclusões! / A única conclusão é morrer."). Todo o poema é disfórico, daí a acumulação de construções negativas. Recusa a estética, a moral, a metafísica, as ciências, as artes, a civilização moderna, apelando ao direito à solidão, apontando a infância como símbolo da felicidade perdida ("Ó céu azul - o mesmo da minha infância - / Eterna verdade vazia e perfeita!").

Nesta fase, Campos sente-se vazio, um marginal, um incompreendido ("O que há em mim é sobretudo cansaço -"; "Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles: / Porque eu amo infinitamente o finito, / Porque eu desejo impossivelmente o possível"). A construção antitética destes versos é, sem, dúvida, o espelho do interior fragmentado do poeta.

publicado por esjapportugues12 às 15:48

Novembro 05 2009

ÁLVARO DE CAMPOS - POETA MODERNISTA

 

ASPECTOS BIOGRÁFICOS

 

  • Nasceu em Tavira, em 15 de Outubro de 1890;
  • Fez o liceu em Portugal e o curso de Engenharia na Escócia.;
  • Engenheiro naval (por Glasgow), vive em Lisboa;
  • Viajou pelo Oriente (dessa viagem resultou o Opiário);
  • Alto, magro e com tendência a curvar-se (elementos retirados da carta a Adolfo Casais Monteiro, 1935).

PERSONALIDADE LITERÁRIA

 

Poeta modernista, sensacionista, a sua poesia tem três fases: decadentista, futurista e intimista.

 

FASE DECADENTISTA:

 

- tédio e horror à vida

- “nostalgia do além”

- “embriaguez do ópio e dos sonhos”

- fuga à monotonia

 

FASE FUTURISTA:

 

- exaltação da civilização mecânica e industrial

- procura de sensações fortes e modernas

- “apologia de um novo homem, isento de dor, livre”

 

FASE INTIMISTA:

 

- reminiscências do mundo fantástico da infância

- solidão interior, angústia existencial - cepticismo e dor de pensar

- tédio, náusea, desencontro consigo mesmo e com os outros

- fragmentação interior

 

LINHAS TEMÁTICAS:

 

  • Predomínio da emoção espontânea e torrencial;
  • Elogio da civilização industrial, moderna, da velocidade e das máquinas, da energia e da força, do progresso;
  • Poeta virado para o exterior, tenta banir o vício de pensar e acolhe todas as sensações (segundo a lição do seu Mestre Caeiro);
  • Ansiedade e confusão emocional; angústia existencial, sentido do absurdo;
  • Tédio, náusea, desencontro com os outros;
  • Presença terrível e labiríntica do Eu de que o poeta se tenta libertar;
  • Fragmentação do Eu, perda de identidade;
  • Excitação da procura, da busca incessante.

 

ARTE POÉTICA DE ÁLVARO DE CAMPOS:

 

  • Presença de um estilo biográfico;
  • Verso: decassílabos agrupados em quadras (Opiário);
  • Verso livre, longo;
  • Estilo esfuziante, torrencial, dinâmico;
  • Estilo exclamativo, anafórico, interjectivo, com recurso às apóstrofes e enumerações;
  • Comparações, metáforas e antíteses arrojadas.

 

ÁLVARO DE CAMPOS É:

 

  • o sensacionista das grandes odes à civilização moderna com todas as emoções que contém;
  • o cultor das sensações sem limite - "Ah não ser eu toda a gente e toda a parte!";
  • o poeta da energia, da velocidade e das máquinas, da vitalidade e do progresso;
  • o modernista por excelência, que concebe a arte assente na ideia de força, do ímpeto, da fúria e da emoção espontânea;
  • o poeta de estilo impetuoso, febril e do verso torrencial e livre.
publicado por esjapportugues12 às 15:31

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