Maio 02 2010

FELIZMENTE HÁ LUAR, LUÍS DE STTAU MONTEIRO

ESTRUTURA EXTERNA / INTERNA

 

 

 

 

 

 

 

O conflito de Felizmente há Luar! desenvolve-se entre um passado de repressão e obscurantismo (governadores) e um futuro que se anuncia de esperança e de liberdade (Gomes Freire). O facto de o general nunca aparecer em cena pode simbolizar o silenciamento brutal a que eram sujeitos todos os que se insurgiam contra a violência, a opressão e a tirania dos governantes.

 

Acto I

 

Apresentação da situação política e social da época, denunciando-se o modo maquiavélico como o Poder funciona, recorrendo à repressão e à conspiração (a conspiração hábil e desleal contra Gomes Freire prova que o regime precisava de eleger um bode expiatório para garantir a sua força).

 

Acto II

 

O espectador é conduzido ao campo do antipoder e da resistência à tirania e à repressão, assistindo à prisão e esforços para a libertação de Gomes Freire. Matilde encarna o heroísmo anónimo, construído no silêncio, tecido pelo sofrimento, mas não pela resignação.

 

ESTRUTURA BIPARTIDA – FUNCIONALIDADE

 

A estrutura bipartida não é ocasional, mas antes procura inspirar no espectador a consciência de que também ele encarna a revolta popular contra todas as formas de perseguição e aviltamento da dignidade humana. Perante a mesma personagem, o mesmo cenário, as mesmas dúvidas, a obra confirma a sua atmosfera simbólica, universal e intemporal.

 

O CARÁCTER TRÁGICO

 

A obra remete para aspectos trágicos, nomeadamente pelos elementos seguintes:

  • O carácter excepcional das personagens: Gomes Freire, pela coragem, determinação e defesa intransigente dos ideais de justiça e liberdade; Matilde, pela nobreza moral, pela grandeza dos seus sentimentos e pela progressiva consciencialização do seu dever de verdadeira patriota;
  • A simplicidade da acção e o despojamento cénico;
  • O desenlace trágico: o martírio e morte de Gomes Freire.

 

O CARÁCTER APOTEÓTICO

 

 O clima apoteótico é recriado através da fogueira onde Gomes Freire é martirizado que, em vez de ser dissuasora,

 torna-se inspiração para que outros lutem pela liberdade: «Olhem bem! Limpem os olhos no clarão daquela fogueira e abram as almas ao que ela nos ensina! Até a noite foi feita para que a vísseis até ao fim...».

 

O TEATRO ÉPICO (INSPIRAÇÃO DE BERTOLT BRECHT)

 

A fábula histórica

 

 

Sttau Monteiro recupera acontecimentos que marcam o início do século XIX, para servirem de denúncia da situação social e política do país dos anos 60, em plena ditadura salazarista. Assim, as primeiras manifestações sociais e políticas, que levaram à revolução liberal, servem também como denúncia da miséria, da opressão e injustiça que dominam o Portugal da década de sessenta. O martírio de Gomes Freire é também o do general Humberto Delgado, silenciado pelo regime, porque símbolo do protesto e do inconformismo face à ditadura.

 

 

Análise crítica da sociedade

 

 

Ao mostrar a realidade, em vez de a representar, o drama épico leva o espectador a reagir criticamente e a tomar posição. Este, enquanto elemento de uma sociedade, assume a sua posição testemunhal, interpretando, reflectindo e julgando os acontecimentos apresentados.

 

 

A técnica da distanciação / a função pedagógica

 

 

À semelhança de Brecht, Sttau Monteiro propõe um afastamento do espectador perante a história narrada, para que, de forma mais autêntica, possa emitir juízos críticos sobre a realidade apresentada. Ao contrário do teatro clássico, o drama épico não procura criar um efeito hipnótico sobre o espectador, inspirando-lhe emoções e sentimentos, mas antes torná-lo uma voz activa no julgamento da própria sociedade em que se insere. O teatro assume, assim, uma finalidade pedagógica, já que move o espectador a intervir lúcida e criticamente sobre a realidade social em que vive, combatendo todas as formas de injustiça e opressão.

 

 

 

Os Revolucionários

 

Gomes Freire de Andrade

 

É um homem instruído, letrado, um «estrangeirado», símbolo da integridade de carácter, da recusa da tirania em defesa dos ideais de justiça e liberdade.

É também o símbolo da modernidade e do progresso, já que adepto das novas ideias liberais.

É assumido como uma ameaça à autoridade dos governadores, gerando ódios e desejos mesquinhos de vingança, seja pela sua lúcida integridade moral, seja pela sua argúcia excepcional de militar, ou até mesmo pela admiração incontestável que lhe dedica o povo.

Inteligente, lúcido, capaz de ver para além da hipocrisia dos poderosos, mas humilde e discreto, já que nunca se serviu do seu estatuto para influenciar o povo.

 

Matilde

 

 

Amante, esposa e «companheira de todas as horas» do general, exprime romanticamente o amor que a faz acreditar no sentido da sua vida e ajuda a manter a esperança de o marido conseguir vencer a vilania da morte a que foi sujeito.

Reage violentamente perante o ódio e as injustiças, desmascarando o interesse mesquinho, a hipocrisia, a traição, a manipulação perversa do poder. Revela uma inteligência subtil e uma grande capacidade de argumentação, capaz de desarmar os falsos valores dos governantes. Corajosa, assume-se como a voz da consciência dos governantes, obrigando-os a enfrentar os seus actos de cobardia.

O seu discurso final é uma resposta provocatória à violência da sociedade e um anúncio de esperança numa nova era.

 

António de Sousa Falcão

 

A sua lealdade a Gomes Freire e Matilde é revelada na profunda admiração, no apoio incondicional que lhes dedica, acompanhando a esposa do general na angustiosa tentativa de o libertar, não poupando elogios à conduta do homem corajoso com quem partilhara sonhos e ideais.

O seu sentido crítico fá-lo duvidar da justiça dos governantes e revoltar-se contra a indignidade do tratamento dado ao general durante a sua prisão.

Perante o exemplo de coragem do general, chega a reconhecer a sua cobardia e a inutilidade da sua luta, embora não se contenha e chegue mesmo a pôr em risco a sua vida ao insultar D. Miguel.

 

Os Governadores

 

D. Miguel

 

É o protótipo do pequeno tirano, inseguro e arrogante, simbolizando a decadência do país que governa, minado pela hipocrisia e pela mesquinhez.

O seu espírito decrépito e caduco impede o progresso, já que acredita fanaticamente na manutenção de um governo absolutista. De carácter megalómano e prepotente, revela o seu calculismo político, a sua ambição desmedida e um egoísmo arrogante, no exercício do poder.

Frio, desumano, é a «personificação da mediocridade consciente e rancorosa».

 A sua crueldade revela-se perante a execução de Gomes Freire, que será exemplo para os que ousem desafiá-lo.

 

Principal Sousa

 

De carácter mesquinho e vingativo, diz odiar os franceses, os principais responsáveis pelo clima de revolta que agita o reino e justifica a condenação de Gomes Freire por um desagravo cometido sobre um familiar, embora tente dissimulá-la sob a forma de um acto de defesa do reino, apenas para manter a sua consciência tranquila.

A sua cobardia impede-o de manter uma discussão séria com Beresford, embora não esconda a sua animosidade pelo inglês.

Hipócrita, o seu discurso religioso é continuamente deturpado em função dos seus interesses monetários.

 

Marechal Beresford

 

Representa o poder calculista e o interesse material, que fazem dele um mercenário astuto e arrogante.

De carácter trocista e mordaz, não esconde o seu desprezo pelo país onde é obrigado a viver, não desperdiçando qualquer oportunidade para ridicularizar a sua pequenez e provincianismo.

Reconhecendo ser alvo do desprezo do povo, procura a todo o custo salvaguardar o seu posto de militar, participando activamente no processo de condenação do homem que poria em risco a sua carreira, o seu prestígio e os seus privilégios.

 

Os Delatores

 

Vicente

 

Símbolo da falsidade, da ambição e do oportunismo, defende o valor do dinheiro e do poder como forma de ascender socialmente, ainda que o faça pela traição e pela denúncia.

Hipócrita, tenta dissimular a indignidade dos seus actos através do serviço a el-rei e à Pátria.

Servil e materialista, procura, através da astúcia e da adulação, conquistar a simpatia dos governadores, mesmo que tenha de trair os da sua classe.

 

Andrade Corvo e Morais Sarmento

 

Tal como Vicente, representam o grupo dos delatores, que colaboram com o regime visando o lucro pessoal.

A falta de escrúpulos, a ganância e a preguiça, justificam a denúncia do general e a traição aos valores que defendem, nomeadamente os ideais maçónicos e o seu pretenso patriotismo.

O seu carácter cobarde enuncia-se no modo como se apresentam perante os governadores, «embuçados», e a adulação é também a forma usada para cair nas graças dos poderosos.

 

Os Populares

 

Manuel

 

«O mais consciente dos populares» é também a voz da denúncia continuamente silenciada abafada pela repressão contínua das forças policiais. Representa metaforicamente o povo português condenado a uma existência ignóbil, coexistindo com a miséria, a fome, a opressão, desanimado e impotente para alterar o seu destino.

 

Rita

 

A solidariedade para com Matilde é marcante, pois como mulher compreende a perda irremediável do amor e da família.

É com comoção que a beija, depois de lhe entregar a moeda, símbolo da sua cumplicidade.

 

Antigo Soldado

 

A identidade anónima confirma a simbologia da sua personagem: reconstrói o percurso militar de Gomes Freire, lembrando o valor da luta pela liberdade, mas é também a representação do desprezo a que o regime vota os homens que se sacrificam nos seus exércitos.

Também ele personaliza o desalento, o pessimismo e a decepção do povo que vê adiada a possibilidade de mudança com a prisão do general.

 

ESPAÇO

 

Espaço cénico

 

O espaço cénico contribui para a construção de sentidos da obra, expondo a dimensão ideológica da mesma. Os sons, os jogos de luz/sombra, os objectos decorativos e a posição das personagens em palco são os elementos a destacar.

 

Manuel, situado num espaço cénico dominado pela escuridão, é subitamente exposto à luz, ocupando um lugar à frente do palco. O carácter simbólico da sua presença é posto em evidência através dos seguintes aspectos:

 A personagem, enquanto símbolo do povo oprimido, traduz a estagnação de um país, a impossibilidade de mudança, pela repressão imposta pelo Poder, através da sua pergunta absurda, do gesto de impotência e dos trajes andrajosos que veste;

 A escuridão que rodeia a personagem sugere a miséria, a ignorância e a opressão;

 A nível da movimentação, a impossibilidade de continuar, por parte da personagem («detém-se»), indicia a perda irremediável do general Gomes Freire e, em consequência, a perda da esperança.

 

ESPAÇO SOCIAL

 

Classes sociais: Povo / Poderosos

 

O povo é caracterizado pela sua pobreza, doença e miséria: o vestuário andrajoso, os sacos e caixotes que servem de acomodações, o contínuo mendigar.

Os poderosos, pelo contrário, surgem representados na sua riqueza ostensiva e arrogante (guarda-roupa cuidado, cadeiras como «tronos»).

 

No período posterior às Invasões Francesas e à partida da corte para o Brasil, o reino vive uma conjuntura política e social marcada pela crise e pela luta entre um poder repressivo e a aspiração da liberdade que conduzirá à revolução liberal: o Conselho de Regência, que integrava oficiais ingleses e membros do clero, mantém uma política de tirania, repressão e perseguição de todos os que se insurgissem contra o poder oficial. O povo, descontente, votado à miséria e ao silêncio, mas desejoso de liberdade, confere ao general Gomes Freire o estatuto de herói, já que representa a única esperança de revolta contra a opressão.

 

VALORES SOCIAIS EM CRISE

 

A impotência do povo contra o despotismo

 

Manuel, o homem do povo, reflecte sobre a sua incapacidade para resistir ao sistema, através da interrogação que abre os dois actos («Que posso eu fazer?»).

 

 A recusa do progresso e da cultura

 

O Principal Sousa clarifica as directrizes de um regime absolutista, em que cultura é sinónimo de poder e, por isso, deve ser mantida inacessível às massas populares («...a sabedoria é tão perigosa como a ignorância! (...) Sei bem como a palavra “liberdade”, na boca dos demagogos, se torna aliciante ...»; «Por essas aldeias fora é cada vez maior o número dos que só pensam aprender a ler... Dizem-me que se fala abertamente em guilhotinas e que o povo canta pelas ruas canções subversivas.»).

 

A corrupção, a imoralidade e a injustiça dos políticos

 

D. Miguel põe em destaque a corrupção que garante a autoridade do Poder («A questão que temos de resolver (...) Consiste apenas em chegarmos a acordo acerca da pessoa que mais nos convém que tenha sido o chefe a conjura.»), deixando também evidente que são os caprichos pessoais que motivam a actuação política («Para o público não compreender o que se passa, o julgamento será secreto, e para evitar o perdão de el-rei, a execução seguir-se-á imediatamente à sentença.» ).

 

A ambição mesquinha e a conspiração

 

Beresford mantém-se atento à defesa dos interesses do reino («Neste país de intrigas e de traições, só se entendem uns com os outros para destruir um inimigo comum...»), mas apenas por interesses materiais, não escondendo o seu desprezo pelo país onde trabalha.

 

A traição, a conspiração generalizada

 

A corrupção material e moral parece atingir todas as classes sociais, como se depreende da traição de Vicente e de Andrade Corvo e Morais Sarmento («Se eu souber render o peixe, sou capaz de acabar com uma capela... ou chefe de polícia, quem sabe?»; «Meu amigo: você desconhece o que se compra de respeitabilidade com uma pensão anual de 800$00...»).

 

SIMBOLOGIA

 

Luar

 

Para D. Miguel, o luar permitirá que o clarão da fogueira atemorize todos os que querem lutar pela liberdade, confirmando assim o efeito dissuasor e exemplar das execuções perante aqueles que ousassem desafiar a autoridade dos Governadores.

 

Para Matilde, o luar sublinhará a intensidade do fogo, que simboliza a coragem e a força de um homem que morreu pela liberdade e, por isso, se torna símbolo do esclarecimento e da revolta contra a tirania (anúncio da revolução liberal / 25 de Abril?).

 

Fogo

 

A fogueira acaba por ter um carácter redentor, simbolizando a purificação, a morte da «velha ordem», a vida e o conhecimento. O fogo traduz a chama que se mantém viva e a fé na liberdade que há-se chegar («Julguei que isto era o fim e afinal é o princípio. Aquela fogueira, António, há-de incendiar esta terra!»).

 

Luz / noite

 

A luz traduz a caminhada da sociedade em direcção à liberdade, vencendo o medo e a insegurança da noite, recusando a violência e a repressão. A luz é a metáfora do conhecimento que permite o progresso da sociedade, assente na defesa dos valores da liberdade, da igualdade e da fraternidade.

 

A noite (escuridão, trevas) representa a morte, a repressão, a violência, o castigo, o obscurantismo, a conspiração («Como é que se pode lutar contra a noite?»).

 

Saia verde

 

Símbolo de esperança na renovação, da superação da violência e da repressão, da defesa da liberdade (fora comprada em Paris, foco dos ideais revolucionários liberais).

Traduz o amor verdadeiro e redentor, capaz de conduzir a personagem a superar o seu estado de revolta e a comunicar aos outros, apáticos e indiferentes, o futuro, a esperança.

 

Moeda

 

Simboliza a miséria, a pobreza de um povo que mendiga pela sobrevivência, pela dignidade, pelo direito à vida e à liberdade.

Traduz a traição, a corrupção, a submissão dos poderosos a interesses mesquinhos e materiais (Matilde, quando a atira ao Principal Sousa, lembra a bíblica traição de Judas).

 

Tambores

 

Símbolos da repressão militar e policial que desagrega e aniquila, traduzem a morte, a violência e a intimidante perseguição a que o povo era sujeito para não pôr em causa a autoridade tirânica dos governadores, «sempre presente e sempre pronta a intervir».

 

Sinos

 

Traduzem o perverso envolvimento da Igreja nos assuntos do Estado, contribuindo para a repressão imposta sobre o povo (anunciam a morte de Gomes Freire).

 

Cadeiras

 

Descritas como «pesadas e ricas com aparência de tronos», simbolizam a opulência, o poder tirânico e absolutista dos governadores e a violência e caducidade do sistema monárquico.

 

LINGUAGEM

 

Oralidade / ironia crítica

 

A linguagem da obra é natural, viva, próxima do discurso oral (interrogações, exclamações, vocabulário familiar e popular, orações coordenadas, construção sintáctica simples, redundâncias e pleonasmos...) e tradutora das emoções das personagens (hesitação, interrupção...), mas surge também dominada pela ironia e pelo sarcasmo.

 

Conflito poder / antipoder

 

A linguagem traduz assim o conflito entre o poder e o antipoder:

 A linguagem dos representantes do poder evidencia um sentido prático, utilitário e material da vida. As falas são mais longas, excessivamente discursivas.

 A voz do contrapoder (Matilde, povo) ganha frequentemente um sentido poético, expondo a afectividade e os dramas interiores das personagens.

 A ironia, porém, funciona como denúncia crítica da hipocrisia e da violência dos que representam o poder. O discurso do autor/encenador é essencialmente valorativo, uma vez que convida o espectador a assumir uma atitude crítica em relação aos factos apresentados.

publicado por esjapportugues12 às 16:13

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