Janeiro 19 2010

Características da poesia de Campos nas duas estrofes iniciais de Ode Triunfal

 

 

 Patrícia Ribeiro, 12.º E

 

 

As duas estrofes iniciais do poema Ode Triunfal, de Álvaro de Campos, remetem para a fase futurista-sensacionista.

Na linha do futurismo, o sujeito poético exalta todas as dinâmicas, a velocidade, a força, o movimento («Forte espasmo retido nos maquinismos em fúria…») e, inspirado pelo sensacionismo, afirma que a única realidade é a sensação.

Detentor de uma personalidade forte, nervosa, e de uma imaginação torrencial e exaltada, o sujeito poético identifica-se com as coisas mais aberrantes desta nova realidade mecânica e industrial («E arde-me a cabeça de vos querer cantar com um excesso…»; «Tenho os lábios secos, ó grandes ruídos modernos…»).

Nesta fase, Campos recorre ainda a um universo de conceitos desprovidos de carga poética para cantar a civilização moderna, celebrando o triunfo da máquina, da energia mecânica e do progresso técnico («Ó rodas, ó engrenagens, r-r-r-r-r-r eterno!»).

publicado por esjapportugues12 às 16:10

Janeiro 12 2010

ODE TRIUNFAL

 

Correcção do Guião de Leitura

 

Grupo A

 

 

 

1.  Identifica a importância do título «Ode Triunfal».

 

A palavra «ode», de origem grega, significa um cântico laudatório de uma pessoa, instituição ou acontecimento, por isso, associada ao adjectivo «triunfal», traduz algo de grandioso, espectacular, sublinhando, deste modo, a intenção do sujeito poético de celebrar a modernidade, o triunfo da civilização técnica e industrial.

 

2. Indica a situação em que se encontra o sujeito poético, no início do texto.

 

O sujeito poético, exposto à «dolorosa luz das grandes lâmpadas eléctricas da fábrica», sente-se debilitado pela febre e, por isso, mais intensamente permeável aos ruídos, aos odores, aos movimentos alucinantes das máquinas («Tenho os lábios secos, ó grandes ruídos modernos,/ De vos ouvir demasiadamente de perto…»). O estado nevrótico do sujeito poético fá-lo sentir-se simultaneamente incomodado e arrebatado pelos «maquinismos em fúria» («Escrevo rangendo os dentes…»; «Em fúria fora e dentro de mim…»; «…todos os meus nervos dissecados fora…»), não conseguindo resistir à multiplicidade de sensações que a modernidade lhe proporciona («E arde-me a cabeça de vos querer cantar com um excesso…»).

 

3. Diz de que modo o poema é uma celebração da modernidade.

 

Numa tentativa de celebrar a civilização moderna e cosmopolita, de glorificar o progresso e as conquistas tecnológicas e mecânicas, o sujeito poético evoca a «embriaguez» de tudo o que é novo, fruto do génio criador do homem. Evoca os «grandes ruídos modernos», as «máquinas», «todas as dinâmicas», acompanhando o ritmo alucinante da contemporaneidade. Sente-se perfeitamente em sintonia com uma realidade, onde a energia, a mecânica e a força têm expressão máxima, por isso diz querer «abrir-se completamente, tornar-se passento a todos os perfumes de óleos e calores e carvões» de uma «flora estupenda, negra, artificial», em «fraternidade com todas as dinâmicas».

 

4. Retira do texto exemplos do sensacionismo de Campos.

 

A embriaguez da modernidade e a entrega voluptuosa do sujeito poético à violência das sensações são características da poesia de Campos. O progresso mecânico e industrial arrasta-o para um universo de sensações novas e violentas, numa espécie de delírio, deixando-o entregue a essa nova realidade de força, energia, velocidade e movimento («…querer cantar com um excesso / De expressão de todas as minhas sensações…»). O sensacionismo de Campos, de cariz masoquista e sensualista, apela a um gozo orgíaco e extremo: «Eu podia morrer triturado por um motor / Com o sentimento de deliciosa entrega duma mulher possuída.»; «Metam-me debaixo dos comboios! / Espanquem-me a bordo dos navios!».

 

5. Mostra que a glorificação da contemporaneidade alterna com a denúncia dos aspectos mais negativos do progresso.

 

A impetuosa celebração da modernidade é atenuada pela atitude irónica do sujeito poético na denúncia dos efeitos perversos do progresso civilizacional. Assim, o sujeito critica a imoralidade e a desumanidade da «gente ordinária e suja», incomoda-se com a miséria da «gente humana que vive como cães», ofende-se perante a perversidade de todos os que estão «abaixo de todos os sistemas morais», comove-se com esta «fauna maravilhosa do fundo do mar da vida». A sua atitude crítica estende-se até à decadência da sociedade, mergulhada em «corrupções políticas», «escândalos financeiros e diplomáticos», «agressões políticas nas ruas».

 

6. Comenta a expressividade das exclamações e das enumerações ao longo do excerto.

 

As exclamações traduzem a atitude exaltada e impetuosa do sujeito poético, que tenta apreender de forma desmesurada todos os estímulos da modernidade. O excesso violento de sensações fá-lo evocar realidades novas, num apelo ao gozo quase perverso da agressividade, da dor e do prazer («Com um excesso contemporâneo de vós, ó máquinas!»; «Ah, poder exprimir-me todo como um motor se exprime!»; «Masoquismo através dos maquinismos!»; «Atirem-me para dentro das fornalhas!»). As enumerações expressam o frenético desejo do sujeito poético sentir tudo de todas as maneiras, registando de forma aparentemente caótica as sensações que experimenta («Desta flora estupenda, negra, artificial e insaciável!»; «A todos os perfumes de óleos e calores e carvões...»).

 

 

Grupo B

 

Álvaro de Campos representa o típico poeta da modernidade, da civilização e da técnica do mundo contemporâneo […].

 

David Mourão-Ferreira, Fernando Pessoa – O Rosto e as Máscaras

 

Tópicos a desenvolver:

 

• Engenheiro naval e viajante, Álvaro de Campos surge como um vanguardista e cosmopolita, exaltando, em tom futurista, a civilização moderna e os valores do progresso;

 

• Cantor do mundo moderno, o poeta procura sentir «tudo de todas as maneiras», seja a força explosiva dos maquinismos, seja a velocidade, a energia, o movimento;

 

• «Poeta da modernidade, Campos tanto celebra a civilização industrial e mecânica, como expressa o desencanto do quotidiano citadino…

 

 

Produção de um texto expositivo-argumentativo:

 

 

  Engenheiro naval e viajante, Álvaro de Campos é figurado, biograficamente, por Fernando Pessoa, como vanguardista e cosmopolita, espelhando-se este perfil particularmente nos poemas em que exalta, em tom futurista, a civilização moderna e os valores do progresso, como é o caso da «Ode Triunfal».

  Cantor do mundo moderno, o poeta procura incessantemente sentir «tudo de todas as maneiras», seja a força explosiva dos maquinismos, seja a velocidade, a energia, o movimento, identificando-se com esta «flora estupenda, negra, artificial e insaciável». O poeta deseja exprimir-se «como um motor se exprime» e «ser completo como uma máquina», numa volúpia de sensações que chega aos extremos do masoquismo («Espanquem-me a bordo de navios!»).

  Poeta da modernidade, Campos tanto celebra, num estilo torrencial, amplo e até violento, a civilização industrial e mecânica, como expressa o desencanto do quotidiano citadino, apontando os efeitos perniciosos do progresso, como a desumanização, a corrupção moral, a hipocrisia («Maravilhosa gente humana que vive como os cães, / Que está abaixo de todos os sistemas morais…»).

  Em Suma, Campos procura ultrapassar os efeitos de uma sensibilidade frágil e doentia através de uma «histeria de sensações» e a força da máquina surge como uma compensação para o seu falhanço pessoal. (199)

publicado por esjapportugues12 às 17:54

Janeiro 07 2010

RICARDO REIS - NÃO TENHAS NADA NAS MÃOS

 

Correcção do guião de leitura (manual, página 91)

Não tenhas nada nas mãos

Nem uma memória na alma,

 

Que quando te puserem

Nas mãos o óbolo último,

 

Ao abrirem-te as mãos

Nada te cairá.[…]

 

1. Os versos «Não tenhas nada nas mãos / Nem uma memória na alma…» remetem para a filosofia epicurista defendida por Ricardo Reis, que apela à moderação das emoções, renunciando ao prazer, abstendo-se de qualquer desejo ou vontade, numa atitude contemplativa perante a vida. Defendendo a necessidade de viver num estado de profunda serenidade e desprendimento, o sujeito procura assim iludir o sofrimento que a ideia de morte lhe inspira.

 

2. O conselho do sujeito poético nada mais é do que uma tentativa ilusória para combater a dor e a perturbação causadas pela passagem do tempo e a proximidade da morte. A recusa de qualquer compromisso que comprometa a sua liberdade interior é a única forma de superar a angústia face a uma fatalidade inevitável («Ao abrirem-te as mãos / Nada te cairá.»).

 

3. As interrogativas retóricas apontam para a filosofia estóica, pois o sujeito poético está consciente de que o Fado é inalterável e cabe a cada um, de forma altiva e resignada, aceitar o fim e a morte. O poder, o mérito e a grandeza humana nada valem perante essa cruel certeza: tudo é efémero e está condenado à fatalidade («Que trono te querem dar / Que Átropos to não tire?»).

 

4. As expressões «Colhe flores» e «Senta-te ao sol» estão relacionadas com a filosofia horaciana do carpe diem, aproveitar o momento presente, de forma serena e contida, para evitar qualquer perturbação. A expressão «larga-as da mão» sugere uma atitude epicurista, convidando à recusa de qualquer emoção intensa, porque só recusando os compromissos é que se conhece a verdadeira tranquilidade.

 

5. O verbo abdicar traduz a ideia de recusa, de abandono. Assim, os últimos versos do poema («Abdica/ E sê rei de ti próprio.») sugerem que só é possível evitar a dor e a perturbação através da aceitação lúcida e resignada das leis da vida, no limitado espaço de liberdade de que dispomos (estoicismo).

 

 

 

RICARDO REIS – UNS, COM OS OLHOS POSTOS NO PASSADO

 

Correcção do guião de leitura (manual, página 92)

 

 

Uns, com os olhos postos no passado,

Vêem o que não vêem; outros, fitos

Os mesmos olhos no futuro, vêem

O que não pode ver-se. […]

 

1. O sujeito reconhece que há quem olhe para o passado, mas esse apenas vê um simulacro da realidade, porque esta não existe no presente (“Uns, com os olhos postos no passado,/ Vêem o que não vêem...”). Há ainda “outros” que olham o futuro, mas “vêem/ O que não pode ver-se”, ou seja, imaginam o que ainda não existe e, como tal, retêm da realidade uma imagem enganosa.

 

2. Para o sujeito, a única realidade concreta é o presente, por isso faz a apologia da vivência do momento (carpe diem), influenciado pela sabedoria horaciana, considerando um engano a construção da existência a partir de um passado morto (“Vêem o que não vêem...”) ou de um futuro incerto (“...vêem/ O que não pode ver-se.”). Sabendo que a morte é certa e que nada pode contrariar o Destino, o sujeito adopta a filosofia estóica, reconhecendo assim a inutilidade de qualquer esforço humano para modificar o que já está determinado (“O Fado nos dispõe, e ali ficamos;/ Que a Sorte nos fez postos/ Onde houvemos de sê-lo.”).

 

3. O sujeito poético defende o epicurismo, pois sabe que é em cada instante vivido que o homem se realiza (“Colhe/ O dia, porque és ele.”) e conquista uma felicidade possível (“A segurança nossa...”), superando a angústia causada pela consciência da brevidade da vida (“Este é o dia, / Esta é a hora, este o momento, isto / É quem somos…”), face à ameaça do tempo destruidor (“Perene flui a interminável hora/ Que nos confessa nulos.”).

 

4. O sujeito poético denuncia a sua angústia perante a efemeridade da vida e a passagem inexorável do tempo que o conduzirá fatalmente à morte (“Perene flui a interminável hora/ Que nos confessa nulos.”). O desespero perante a inevitabilidade do Destino e da morte (“O Fado nos dispõe....”; “...morreremos...”) obriga o sujeito a procurar uma filosofia de vida que lhe permita superar o sofrimento e atingir uma felicidade ainda que relativa (a defesa do presente como tempo de realização do homem, a única temporalidade ao seu alcance: “Colhe/ O dia, porque és ele.”).

 

5. A afirmação “Colhe/ O dia, porque és ele.” traduz o ideal epicurista do gozo moderado, disciplinado, do momento presente.

 

6. Entre os recursos expressivos que se destacam neste poema, saliente-se a presença da adjectivação e do hipérbato que põem em evidência a efemeridade da vida face ao fluir inexorável do tempo que conduz o sujeito poético à morte (“Perene flui a interminável hora/ Que nos confessa nulos.”). Além disso, a metáfora põe em destaque o poder inelutável do Destino a que a vida humana é sujeita, anulando qualquer tentativa de fuga - o homem torna-se joguete de uma entidade sobrenatural, contra a qual é inútil a sua vontade ou esforço (“No mesmo hausto / Em que vivemos, morreremos.”).

publicado por esjapportugues12 às 13:18

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