Novembro 06 2009

ANÁLISE DE POEMAS DE ÁLVARO DE CAMPOS

 

FASE DECADENTISTA

 

Opiário

 

                      Ao Senhor Mário de Sá-Carneiro

 

É antes do ópio que a minh' alma é doente.

Sentir a vida convalesce e estiola

E eu vou buscar ao ópio que consola

Um Oriente ao oriente do Oriente.

 

Esta vida de bordo há-de matar-me.

São dias só de febre na cabeça

E, por mais que procure até que adoeça,

Já não encontro a mola pra adaptar-me.

 

Em paradoxo e incompetência astral

Eu vivo a vincos de ouro a minha vida,

Onda onde o pundonor é uma descida

E os próprios gozos gânglios do meu mal.

 

É por um mecanismo de desastres,

Uma engrenagem com volantes falsos,

Que passo entre visões de cadafalsos

Num jardim onde há flores no ar, sem hastes.

                        

                                                                     (excerto)

 

 

Linhas de Leitura

 

 A nostalgia do além, sugerida pelas referências ao Oriente, traduzem a saturação ou a incapacidade de integração na civilização ocidental e remetem o sujeito poético para um estado de divagação alienante e um pessimismo desistente.

 

     «Eu acho que não vale a pena ter ido ao Oriente e visto a índia e a China.»

     «Volto à Europa descontente...»

 

 A evasão através do sonho, da evocação de espaços irreais ou inexistentes, é alternada pela procura de sensações novas e extremas que só a embriaguez do ópio pode proporcionar. No entanto, a falta de vontade e de energia interior parecem anular qualquer solução que este pudesse representar.

 

    «E eu vou buscar ao ópio que consola / Um Oriente...»

    «Por isso eu torno ópio. É um remédio.»

    «Qu' ria outro ópio mais forte...»

 

 O tédio, o cansaço, a apatia, a descrença e a morbidez do sujeito poético traduzem a sua incapacidade de viver a vida, a inércia perante uma existência anuladora e monótona.

 

     «...a minh' alma é doente.»

     «Trabalhei para ter só o cansaço...»

    «E a minha mágoa de viver persiste.»

    «E ver passar a vida faz-me tédio.»

    «Não tenho personalidade alguma.»

 

 A náusea e a demissão da vida, que marcam a poesia decadentista, representam também o assumir de um fracasso pessoal.

 

     «…isto acaba mal e há-de haver (...) sangue e um revólver lá pró fim...»

     «Deixe-me estar aqui, nesta cadeira, / Até virem meter-me no caixão.»

 

 

Recursos expressivos

 

 A atitude irónica ou sarcástica:

 

    «Nasci pra mandarim de condição, / Mas falta-me o sossego, o chá e a esteira.»

    «Quantos sob a casaca característica / Não terão como eu horror à vida?»

 

 O vocabulário entre precioso e banal:

 

    «Em paradoxo e incompetência astral.»

    «...os próprios gozos gânglios do meu mal.»

    «O comissário de bordo é velhaco! Viu-me coa sueca...»

    «Que um raio as parta!»

 

 As imagens e os símbolos:

 

    «Um Oriente ao Oriente do Oriente.»

    «...vincos de ouro...»

    «...minha vida, cânfora na aurora.»

   «O absurdo, como uma flor da tal índia...»

 

 

 

FASE FUTURISTA / SENSACIONISTA

 

 

Ode Triunfal

 

À dolorosa luz das grandes lâmpadas eléctricas da fábrica

Tenho febre e escrevo.

Escrevo rangendo os dentes, fera para a beleza disto,

Para a beleza disto totalmente desconhecida dos antigos.

 

Ó rodas, ó engrenagens, r-r-r-r-r-r eterno!

Forte espasmo retido dos maquinismos em fúria!

Em fúria fora e dentro de mim,

Por todos os meus nervos dissecados fora,

Por todas as papilas fora de tudo com que eu sinto!

Tenho os lábios secos, ó grandes ruídos modernos,

De vos ouvir demasiadamente de perto,

E arde-me a cabeça de vos querer cantar com um excesso

De expressão de todas as minhas sensações,

Com um excesso contemporâneo de vós, ó máquinas!

 

Em febre e olhando os motores como a uma Natureza tropical -

Grandes trópicos humanos de ferro e fogo e força -

Canto, e canto o presente, e também o passado e o futuro -

Porque o presente é todo o passado e o futuro

E há Platão e Virgílio dentro das máquinas e das luzes eléctricas

Só porque houve outrora e foram humanos Virgílio e Platão

E pedaços do Alexandre Magno do século talvez cinquenta,

Átomos que hão-de ir ter febre para o cérebro de Ésquilo do século cem,

Andam por estas correias de transmissão e por estes êmbolos e por estes volantes,

Rugindo, rangendo, ciciando, estrugindo, ferreando,

Fazendo-me um excesso de carícias ao corpo numa só carícia à alma.

 

Ah, poder exprimir-me todo como um motor se exprime!

Ser completo como uma máquina!

                                 

                                                                       (excerto)

 

 

Linhas de Leitura

 

 

IMPORTÂNCIA DO TÍTULO

 

A palavra ode, de origem grega, significa cântico laudatório ou de exaltação de uma pessoa, instituição ou acontecimento. Com o epíteto de Triunfal, pretendeu o poeta não só vincar, mas também hiperbolizar o significado de ode, apontando para qualquer coisa de grandioso, não apenas no conteúdo, mas também na forma, imprimindo-lhe uma sugestão de força ou exagero, em nítida coerência com a estética do Futurismo / Sensacionismo.

 

 

ASSUNTO

 

Sob influência de Marinetti e Walt Whitman, a Ode Triunfal canta o triunfo da técnica, as máquinas, os motores, a velocidade, a civilização mecânica e industrial, o comércio, os escândalos da contemporaneidade... Sentir tudo de todas as maneiras é o ideal esfuziantemente revelado pelo sujeito poético, sentir tudo numa histeria de sensações, que lhe permitam identificar-se com as coisas mais aberrantes («Ah, poder exprimir-me todo como um motor se exprime!/ Ser completo como uma máquina!»).

 

DESENVOLVIMENTO DO ASSUNTO

 

 

A exaltação da civilização moderna

 

O poema começa com uma estranha iluminação de lâmpadas eléctricas. Despertando em sobressalto e em sonhos febris, o sujeito poético reconhece-se transportado para o meio de uma fábrica em actividade. O homem adoentado, enfraquecido pela febre, exposto a estes barulhos, é subitamente arrebatado pelas oscilações dos motores e a sua cabeça abrasada começa a vibrar também. Diante dos seus olhos acumula-se uma multiplicidade de impressões e todos os seus sentidos estão despertos: «Tenho os lábios secos, ó grandes ruídos modernos, / De vos ouvir demasiadamente perto, / E arde-me a cabeça de vos querer cantar com um excesso / De expressão de todas as minhas sensações...».

A fábrica aparece então como motivo inspirador para a homenagem a esta civilização moderna, que submerge o eu poético, nevrótico e fragilizado («tenho febre»; «fúria fora e dentro de mim», «meus nervos», «arde-me a cabeça»). É este universo de «lâmpadas eléctricas», «rodas», «engrenagens», «máquinas», «correias de transmissão», «êmbolos» e «volantes» que o faz sentir-se simultaneamente incomodado e atraído pela ruidosa dinâmica dos «maquinismos em fúria».

 

A vertigem das sensações

 

Estabelecendo com esta «flora estupenda, negra, artificial e insaciável» uma ligação eufórica e exaltada, o sujeito poético deixa-se seduzir vertiginosamente por um excesso de sensações que mal tem tempo de fixar na sua «mente turbulenta e encandescida». Sente-se arrebatado por um universo, onde a velocidade, a força e o progresso têm expressão e, por isso, confessa: «Nem sei se existo para dentro. Giro, rodeio, engenho-me. / Eia! sou o calor mecânico e a electricidade!». A violência de sensações fá-lo desejar «ser toda a gente e toda a parte» e limitar a si próprio e ao gozo do instante qualquer noção de temporalidade («O Momento estridentemente ruidoso e mecânico....»).

 

A temporalidade unificada

 

O fulcro do tempo é, assim, o presente, o instante em que o sujeito poético se mostra permeável a todos os estímulos da civilização mecânica e industrial, porque o presente é uma síntese do passado e do futuro («Porque o presente é todo o passado e todo o futuro...»; «Eia todo o passado dentro do presente! / Eia todo o futuro já dentro de nós!»).

 

A atracção erótica pelas máquinas

 

Esta visão excessiva e intensa do real provoca no sujeito poético um estado de quase alucinação, marcadamente sensual: «Fazendo-me um excesso de carícias ao corpo numa só carícia à alma.»; «Poder ao menos penetrar-me fisicamente de tudo isto,/ Rasgar-me todo, abrir-me completamente...»; «Amo-vos carnivoramente,/ Pervertidamente...»; «Possuo-vos como a uma mulher bela...». Esta paixão quase erótica pelas máquinas e este entusiasmo pela civilização moderna assume aspectos de um certo masoquismo sádico, que inspira no sujeito poético sensações novas e violentas, experimentadas até ao histerismo: «Atirem-me para dentro das fornalhas! / Metam-me debaixo dos comboios! / Espanquem-me a bordo de navios! / Masoquismo através de maquinismos!».

Não é estranha, por isso, não só a tendência do sujeito poético para humanizar as máquinas («Forte espasmo retido dos maquinismos em fúria!»; «Grandes trópicos humanos de ferro e fogo e força...»), como também a tentativa de ele próprio se materializar, ou tornar-se parte delas: «Ah, poder exprimir-me todo como um motor se exprime! / Ser completo como uma máquina!»; «Rugindo, rangendo, ciciando, estrugindo, ferreando...».

 

A denúncia social

 

Convém registar ainda que a força e a agressividade do sujeito poético são permanentemente quebradas pela evocação irónica do reverso da medalha da civilização industrial: a desumanização («Progressos dos armamentos gloriosamente mortíferos!»; «...injustiças, violências...»), a hipocrisia e a futilidade («...ó grandes, banais, úteis, inúteis, / Ó coisas todas modernas...»), a corrupção, os escândalos políticos e financeiros («Orçamentos falsificados!»; «Deliciosos escândalos financeiros e diplomáticos...»), os falhanços da técnica («Eh-lá grandes desastres de comboios! / Eh-lá desabamentos de galerias de minas!»), a miséria e a devassidão das multidões («Maravilhosa gente humana que vive como cães, / Que está abaixo de todos os sistemas morais...»).

A aguda sensibilidade do sujeito poético revelada na denúncia do lado negativo e desumano da civilização moderna é uma atitude literária, em que a perfeição e a força das máquinas parecem ser, afinal, compensações para os seus próprios fracassos e para a sua inadaptação, que irão marcar a última fase poética de Álvaro de Campos.

 

Recursos expressivos

 

O estilo vagabundo, paradoxal e vertiginoso deste heterónimo traduz a expressão desmedida de sensações desmedidas. À convulsa avalanche do pensamento sensacionista, corresponde a vertigem de um estilo caudaloso, torrencial e aparentemente caótico. O poema constitui, por isso, uma ruptura com a lírica tradicional, como o confirmam os seguintes aspectos:

- a irregularidade estrófica, métrica e rimática, que resulta num ritmo irregular e nervoso;

- a presença de alguns desvios sintácticos («..fera para a beleza disto...»; «Por todos os meus nervos dissecados fora...»);

- a frequência das expressões exclamativas que sublinham a emoção do sujeito perante os fenómenos da vida moderna;

- as repetições, as enumerações e as onomatopeias que constituem um processo retórico aparentemente caótico que se destina a esgotar a expressão, num estilo torrencial, em catadupa;

- o recurso a palavras desprovidas de carga poética e de índole técnica;

 

As metáforas e as imagens deste texto evidenciam a íntima relação do sujeito poético com o mundo mecânico e industrial, permitindo até a sua plena integração na civilização moderna («E arde-me a cabeça...»; «...Natureza tropical...»; «Pervertidamente enroscando a minha vista...»; «Grandes trópicos humanos de ferro e fogo e força...»; «E há Platão e Virgílio dentro das máquinas e das luzes eléctricas...»);

 

As enumerações traduzem o frenético desejo do sujeito poético de sentir tudo de todas as maneiras, registando de forma aparentemente caótica as sensações que experimenta («Desta flora estupenda, negra, artificial e insaciável!»; «Eh, cimento armado, betão de cimento, novos processos!»).

 

As anáforas expressam a sucessão caótica dos fenómenos da civilização industrial, permitindo ao sujeito poético acompanhar o seu ritmo alucinante e vigoroso («Por todos os meus nervos (...) Por todas as papilas...»; «Poder ir na vida triunfante (...) Poder ao menos penetrar-me...»; «Ó coisas todas modernas, / Ó minhas contemporâneas...» );

 

Os neologismos («parte-agente»; «quase-silêncio») e os estrangeirismos («music-halls»; «Luna-Parks»; «rails») traduzem a ligação do sujeito poético às inovações da modernidade e à universalidade do progresso técnico, assim como o vocabulário de carácter técnico («motores»; «fornalhas»; «guindastes»; «êmbolos»);

 

A adjectivação traduz o excesso de sensações que dominam o sujeito perante a modernidade («flora estupenda, negra, artificial e insaciável»; «promíscua fúria»; «rodar férreo e cosmopolita»; «giro lúbrico e lento»; «quase-silêncio ciciante e monótono»);

 

Os advérbios de modo evidenciam a atracção erótica e carnal do sujeito pelas máquinas e pela modernidade («demasiadamente»; «carnivoramente»; «pervertidamente»); As interjeições confirmam o louvor do sujeito poético à civilização mecânica e a sua contínua agitação («Ó fábricas, ó laboratórios...»; «Eh-lá hô fachadas das grandes lojas!»; «Eia túneis...»; «Ah, poder exprimir-me...);

 

As onomatopeias sugerem a tentativa do sujeito poético de imitar os sons ruidosos das máquinas, exprimindo assim o barulho e a velocidade estonteantes da vida moderna («r-r-rr»; «Hup-lá, hup-lá, hup-lá-hô»; «z-z-z-z-z-z-z»);

 

As apóstrofes confirmam o estilo laudatório do poema e a exaltação da civilização industrial («Ó rodas, ó engrenagens...»; «Ó fazendas nas montras! Ó manequins!»), tal como as exclamações («Forte espasmo retido dos maquinismos em fúria!; «Ser completo como uma máquina!»).

 

 

FASE INTIMISTA

 

 

Não, não é cansaço...

 

Não, não é cansaço...

É uma quantidade de desilusão

Que se me entranha na espécie de pensar,

É um domingo às avessas

Do sentimento,

Um feriado passado no abismo...

 

Não, cansaço não é...

É eu estar existindo

E também o mundo,

Com tudo aquilo que contém,

Com tudo aquilo que nele se desdobra

E afinal é a mesma coisa variada em cópias iguais.

 

Não. Cansaço porquê?

É uma sensação abstracta

Da vida concreta –

Qualquer coisa como um grito

Por dar,

Qualquer coisa como uma angústia

Por sofrer,

Ou por sofrer completamente,

Ou por sofrer como...

Sim, ou por sofrer como...

Isso mesmo, como...

 

Como quê?...

Se soubesse, não haveria em mim este falso cansaço.

 

(Ai, cegos que cantam na rua,

Que formidável realejo

Que é a guitarra de um, e a viola do outro, e a voz dela!)

 

Porque oiço, vejo.

Confesso: é cansaço!...

 

                              Álvaro de Campos, in Poesias, Ed. Ática

 

 

Linhas temáticas

 

 

PERCURSO EMOCIONAL DO SUJEITO POÉTICO

 

 

Nesta composição lírica, sujeito poético afirma no primeiro verso que não é cansaço aquilo que sente, reiterando essa afirmação ao longo do poema. No entanto, e talvez um pouco paradoxalmente, refere que a desilusão se lhe “entranha na espécie de pensar”, sublinha a monotonia da vida (“é a mesma coisa variada em cópias iguais”), exprime a angústia perante o mistério e a indefinição que perpassam nesse “falso cansaço”; finalmente aceita que, “porque ouve e vê”, o estado em que se encontra é de cansaço: “Confesso: é cansaço!...” Assim, pode-se afirmar que, progressivamente, o sujeito poético se deixa dominar por uma letargia, um estado de cansaço e desistência, que o afasta do mundo.

 

RELAÇÃO ENTRE O SUJEITO, O MUNDO E OS OUTROS

 

 

Há entre o sujeito poético, os outros e o mundo um distanciamento, decorrente da incapacidade de relação; o único ponto comum é o facto de todos existirem: “É eu estar existindo/ E também o mundo”. Os outros, os “cegos que cantam na rua”, são apenas aqueles que o sujeito poético observa, mas com quem não se relaciona.

 

IMPORTÂNCIA SIMBÓLICA DOS PARÊNTESES

 

 

Do ponto de vista simbólico, os parênteses constituem um momento em que o sujeito poético abandona o tom reflexivo, se volta para o exterior e o vê como um “formidável realejo”. Os parênteses são como que um oásis num texto de características claramente negativas, uma vez que é o próprio sujeito poético que lhes confere uma conotação positiva. Simbolicamente, poder-se-ia afirmar que a felicidade só é possível para quem é “cego”, ou seja, para quem não vê a verdadeira realidade do mundo.

 

FASE POÉTICA

 

 

Este poema integra-se na fase abúlica de Álvaro de Campos, pelo que revela de incapacidade de viver a vida, pelo que transmite de tédio, de uma certa desistência perante o mundo e os outros. Nada motiva o sujeito poético, nada lhe interessa, tudo se resume a um “supremíssimo cansaço”.

 

 

Recursos expressivos

 

 

A primeira estrofe inicia-se com a repetição do advérbio de negação “não” empregue numa frase reticente, o que revela uma certa indefinição. O discurso assume um tom claramente metafórico (“…domingo às avessas/Do sentimento, /Um feriado passado no abismo...”), terminando a estrofe também com uma frase reticente. O conjunto destes recursos expressivos, aliado à repetição anafórica presente nos versos dois e quatro, traduz a tentativa de definir o estado de espírito que domina o sujeito poético.

publicado por esjapportugues12 às 10:56

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