Novembro 09 2009

O ESSENCIAL SOBRE RICARDO REIS

 

 

 

 

Ricardo Reis é o poeta clássico, da serenidade epicurista, que aceita, com calma lucidez, a relatividade e a fugacidade de todas as coisas. "Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio", "Prefiro rosas, meu amor, à pátria" ou " Segue o teu destino” são poemas que nos mostram que este discípulo de Caeiro aceita a antiga crença nos deuses, enquanto disciplinadora das nossas emoções e sentimentos, mas defende, sobretudo, a busca de uma felicidade relativa alcançada pela indiferença à perturbação.

 

A filosofia de vida de Ricardo Reis é a de um epicurismo triste, pois defende o prazer do momento, o "carpe diem", como caminho da felicidade, mas sem ceder aos impulsos dos instintos. Apesar deste prazer que procura e da felicidade que deseja alcançar, considera que nunca se consegue a verdadeira calma e tranquilidade, ou seja, a ataraxia (a tranquilidade sem qualquer perturbação). Sente que tem de viver em conformidade com as leis do destino, indiferente à dor e ao desprazer, numa verdadeira ilusão da felicidade, conseguida pelo esforço estóico lúcido e disciplinado.

 

Ricardo Reis propõe, pois, uma filosofia moral de acordo com os princípios do epicurismo e uma filosofia estóica:

 "carpe diem", ou seja, aproveitai a vida em cada dia, como caminho da felicidade;

 buscar a felicidade com tranquilidade (ataraxia);

 não ceder ao impulso dos instintos (estoicismo);

 procurar a calma ou, pelo menos, a sua ilusão;

 seguir o ideal ético da apatia que permite a ausência da paixão e a liberdade (sobre esta apenas pesa o Fado).

 

O epicurismo consiste na filosofia moral de Epicuro (341-270 a. C.), que defendia o prazer como caminho da felicidade. Mas, para que a satisfação dos desejos seja estável, sem desprazer ou dor, é necessário um estado de ataraxia. O poeta romano Horácio seguiu de perto este pensamento da defesa do prazer do momento, ao considerar o "carpe diem" (aproveitai o dia) como necessário à felicidade.

 

O estoicismo é uma corrente filosófica que considera ser possível encontrar a felicidade desde que se viva em conformidade com as leis do destino que regem o mundo, permanecendo indiferente aos males e às paixões, que são perturbações da razão. O ideal ético é a apatia, que se define como ausência de paixão e permite a liberdade, mesmo sendo escravo.

 

Ricardo Reis, que adquiriu a lição de paganismo espontâneo de Caeiro, cultiva um neoclassicismo neopagão (crê nos deuses e nas presenças quase-divinas que habitam todas as coisas), recorrendo à mitologia greco-latina, e considera a brevidade, a fugacidade e a transitoriedade da vida, pois sabe que o tempo passa e tudo é efémero. Daí fazer a apologia da indiferença solene diante do poder dos deuses e do destino inelutável. Considera que a verdadeira sabedoria de vida é viver de forma equilibrada e serena, "sem desassossegos grandes".

 

A precisão verbal e o recurso à mitologia, associados aos princípios da moral e da estética epicuristas e estóicas ou à tranquila resignação ao destino, são marcas do classicismo erudito de Reis. Poeta clássico, da serenidade, Ricardo Reis privilegia a ode, o epigrama e a elegia. A frase concisa e a sintaxe clássica latina, frequentemente com a inversão da ordem lógica (hipérbatos), favorecem o ritmo das suas ideias lúcidas e disciplinadas.

 

 

RICARDO REIS – O POETA DA RAZÃO

 

 

Personalidade literária 

 

 

 Discípulo de Caeiro, como o Mestre aconselha a aceitação calma da ordem das coisas e faz o elogio da vida campestre, indiferente ao social.

 Faz dos Gregos o modelo da sabedoria (aceitação do Destino de uma forma digna e altiva).

 Tem consciência da dor provocada pela natureza precária do homem. Tem medo da velhice e da morte.

 Crê no Fado (destino), na efemeridade da vida e do tempo.

 Faz o elogio do epicurismo (tendência para a felicidade pela harmonização de todas as faculdades através da disciplina). Os epicuristas procuram o repouso, a ataraxia (ausência de perturbação) e da aponia (ausência de dor) e gozam em profundidade o dia presente (Carpe Diem).

 Faz o elogio do estoicismo. Os estoicistas renunciam aos prazeres, não se apegam demasiado ao momento presente, procurando o sossego, pela renúncia, a indiferença, aceitando voluntariamente um destino involuntário.

 A sabedoria consiste em gozar o presente (Carpe Diem) através de um exercício da razão.  É austero (no sentido clássico do termo), contido, disciplinado, inteligente.

 Neoclassicista formal e ideológico, moralista, epicurista e estóico. É o poeta da razão e da intelectualização das emoções.

 Subordinação do sentimento à razão; repúdio da confusão entre ideias e emoções.

 Paganismo (atitude assumida perante o mundo e que consiste em aceitar qualquer religião e a existência de deuses em tudo e em todas as coisas).

 

 

Arte poética

 

 

 Dramatização do pensamento que condensa na “Ode” (composição poética, para ser cantada, dividida em estrofes simétricas).

 Monólogos estáticos, frequente utilização do hipérbato e de latinismos.

 Objectividade e rigor formal.

 Irregularidade métrica.

 Importância dada ao ritmo como unidade de sentido.

 Gosto pelo uso do gerúndio.

 Uso frequente do imperativo (em consonância com a feição moralista das suas odes).

 Estilo laboriosamente construído, pensado.

publicado por esjapportugues12 às 12:55

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