Maio 02 2010

FELIZMENTE HÁ LUAR, LUÍS DE STTAU MONTEIRO

ESTRUTURA EXTERNA / INTERNA

 

 

 

 

 

 

 

O conflito de Felizmente há Luar! desenvolve-se entre um passado de repressão e obscurantismo (governadores) e um futuro que se anuncia de esperança e de liberdade (Gomes Freire). O facto de o general nunca aparecer em cena pode simbolizar o silenciamento brutal a que eram sujeitos todos os que se insurgiam contra a violência, a opressão e a tirania dos governantes.

 

Acto I

 

Apresentação da situação política e social da época, denunciando-se o modo maquiavélico como o Poder funciona, recorrendo à repressão e à conspiração (a conspiração hábil e desleal contra Gomes Freire prova que o regime precisava de eleger um bode expiatório para garantir a sua força).

 

Acto II

 

O espectador é conduzido ao campo do antipoder e da resistência à tirania e à repressão, assistindo à prisão e esforços para a libertação de Gomes Freire. Matilde encarna o heroísmo anónimo, construído no silêncio, tecido pelo sofrimento, mas não pela resignação.

 

ESTRUTURA BIPARTIDA – FUNCIONALIDADE

 

A estrutura bipartida não é ocasional, mas antes procura inspirar no espectador a consciência de que também ele encarna a revolta popular contra todas as formas de perseguição e aviltamento da dignidade humana. Perante a mesma personagem, o mesmo cenário, as mesmas dúvidas, a obra confirma a sua atmosfera simbólica, universal e intemporal.

 

O CARÁCTER TRÁGICO

 

A obra remete para aspectos trágicos, nomeadamente pelos elementos seguintes:

  • O carácter excepcional das personagens: Gomes Freire, pela coragem, determinação e defesa intransigente dos ideais de justiça e liberdade; Matilde, pela nobreza moral, pela grandeza dos seus sentimentos e pela progressiva consciencialização do seu dever de verdadeira patriota;
  • A simplicidade da acção e o despojamento cénico;
  • O desenlace trágico: o martírio e morte de Gomes Freire.

 

O CARÁCTER APOTEÓTICO

 

 O clima apoteótico é recriado através da fogueira onde Gomes Freire é martirizado que, em vez de ser dissuasora,

 torna-se inspiração para que outros lutem pela liberdade: «Olhem bem! Limpem os olhos no clarão daquela fogueira e abram as almas ao que ela nos ensina! Até a noite foi feita para que a vísseis até ao fim...».

 

O TEATRO ÉPICO (INSPIRAÇÃO DE BERTOLT BRECHT)

 

A fábula histórica

 

 

Sttau Monteiro recupera acontecimentos que marcam o início do século XIX, para servirem de denúncia da situação social e política do país dos anos 60, em plena ditadura salazarista. Assim, as primeiras manifestações sociais e políticas, que levaram à revolução liberal, servem também como denúncia da miséria, da opressão e injustiça que dominam o Portugal da década de sessenta. O martírio de Gomes Freire é também o do general Humberto Delgado, silenciado pelo regime, porque símbolo do protesto e do inconformismo face à ditadura.

 

 

Análise crítica da sociedade

 

 

Ao mostrar a realidade, em vez de a representar, o drama épico leva o espectador a reagir criticamente e a tomar posição. Este, enquanto elemento de uma sociedade, assume a sua posição testemunhal, interpretando, reflectindo e julgando os acontecimentos apresentados.

 

 

A técnica da distanciação / a função pedagógica

 

 

À semelhança de Brecht, Sttau Monteiro propõe um afastamento do espectador perante a história narrada, para que, de forma mais autêntica, possa emitir juízos críticos sobre a realidade apresentada. Ao contrário do teatro clássico, o drama épico não procura criar um efeito hipnótico sobre o espectador, inspirando-lhe emoções e sentimentos, mas antes torná-lo uma voz activa no julgamento da própria sociedade em que se insere. O teatro assume, assim, uma finalidade pedagógica, já que move o espectador a intervir lúcida e criticamente sobre a realidade social em que vive, combatendo todas as formas de injustiça e opressão.

 

 

 

Os Revolucionários

 

Gomes Freire de Andrade

 

É um homem instruído, letrado, um «estrangeirado», símbolo da integridade de carácter, da recusa da tirania em defesa dos ideais de justiça e liberdade.

É também o símbolo da modernidade e do progresso, já que adepto das novas ideias liberais.

É assumido como uma ameaça à autoridade dos governadores, gerando ódios e desejos mesquinhos de vingança, seja pela sua lúcida integridade moral, seja pela sua argúcia excepcional de militar, ou até mesmo pela admiração incontestável que lhe dedica o povo.

Inteligente, lúcido, capaz de ver para além da hipocrisia dos poderosos, mas humilde e discreto, já que nunca se serviu do seu estatuto para influenciar o povo.

 

Matilde

 

 

Amante, esposa e «companheira de todas as horas» do general, exprime romanticamente o amor que a faz acreditar no sentido da sua vida e ajuda a manter a esperança de o marido conseguir vencer a vilania da morte a que foi sujeito.

Reage violentamente perante o ódio e as injustiças, desmascarando o interesse mesquinho, a hipocrisia, a traição, a manipulação perversa do poder. Revela uma inteligência subtil e uma grande capacidade de argumentação, capaz de desarmar os falsos valores dos governantes. Corajosa, assume-se como a voz da consciência dos governantes, obrigando-os a enfrentar os seus actos de cobardia.

O seu discurso final é uma resposta provocatória à violência da sociedade e um anúncio de esperança numa nova era.

 

António de Sousa Falcão

 

A sua lealdade a Gomes Freire e Matilde é revelada na profunda admiração, no apoio incondicional que lhes dedica, acompanhando a esposa do general na angustiosa tentativa de o libertar, não poupando elogios à conduta do homem corajoso com quem partilhara sonhos e ideais.

O seu sentido crítico fá-lo duvidar da justiça dos governantes e revoltar-se contra a indignidade do tratamento dado ao general durante a sua prisão.

Perante o exemplo de coragem do general, chega a reconhecer a sua cobardia e a inutilidade da sua luta, embora não se contenha e chegue mesmo a pôr em risco a sua vida ao insultar D. Miguel.

 

Os Governadores

 

D. Miguel

 

É o protótipo do pequeno tirano, inseguro e arrogante, simbolizando a decadência do país que governa, minado pela hipocrisia e pela mesquinhez.

O seu espírito decrépito e caduco impede o progresso, já que acredita fanaticamente na manutenção de um governo absolutista. De carácter megalómano e prepotente, revela o seu calculismo político, a sua ambição desmedida e um egoísmo arrogante, no exercício do poder.

Frio, desumano, é a «personificação da mediocridade consciente e rancorosa».

 A sua crueldade revela-se perante a execução de Gomes Freire, que será exemplo para os que ousem desafiá-lo.

 

Principal Sousa

 

De carácter mesquinho e vingativo, diz odiar os franceses, os principais responsáveis pelo clima de revolta que agita o reino e justifica a condenação de Gomes Freire por um desagravo cometido sobre um familiar, embora tente dissimulá-la sob a forma de um acto de defesa do reino, apenas para manter a sua consciência tranquila.

A sua cobardia impede-o de manter uma discussão séria com Beresford, embora não esconda a sua animosidade pelo inglês.

Hipócrita, o seu discurso religioso é continuamente deturpado em função dos seus interesses monetários.

 

Marechal Beresford

 

Representa o poder calculista e o interesse material, que fazem dele um mercenário astuto e arrogante.

De carácter trocista e mordaz, não esconde o seu desprezo pelo país onde é obrigado a viver, não desperdiçando qualquer oportunidade para ridicularizar a sua pequenez e provincianismo.

Reconhecendo ser alvo do desprezo do povo, procura a todo o custo salvaguardar o seu posto de militar, participando activamente no processo de condenação do homem que poria em risco a sua carreira, o seu prestígio e os seus privilégios.

 

Os Delatores

 

Vicente

 

Símbolo da falsidade, da ambição e do oportunismo, defende o valor do dinheiro e do poder como forma de ascender socialmente, ainda que o faça pela traição e pela denúncia.

Hipócrita, tenta dissimular a indignidade dos seus actos através do serviço a el-rei e à Pátria.

Servil e materialista, procura, através da astúcia e da adulação, conquistar a simpatia dos governadores, mesmo que tenha de trair os da sua classe.

 

Andrade Corvo e Morais Sarmento

 

Tal como Vicente, representam o grupo dos delatores, que colaboram com o regime visando o lucro pessoal.

A falta de escrúpulos, a ganância e a preguiça, justificam a denúncia do general e a traição aos valores que defendem, nomeadamente os ideais maçónicos e o seu pretenso patriotismo.

O seu carácter cobarde enuncia-se no modo como se apresentam perante os governadores, «embuçados», e a adulação é também a forma usada para cair nas graças dos poderosos.

 

Os Populares

 

Manuel

 

«O mais consciente dos populares» é também a voz da denúncia continuamente silenciada abafada pela repressão contínua das forças policiais. Representa metaforicamente o povo português condenado a uma existência ignóbil, coexistindo com a miséria, a fome, a opressão, desanimado e impotente para alterar o seu destino.

 

Rita

 

A solidariedade para com Matilde é marcante, pois como mulher compreende a perda irremediável do amor e da família.

É com comoção que a beija, depois de lhe entregar a moeda, símbolo da sua cumplicidade.

 

Antigo Soldado

 

A identidade anónima confirma a simbologia da sua personagem: reconstrói o percurso militar de Gomes Freire, lembrando o valor da luta pela liberdade, mas é também a representação do desprezo a que o regime vota os homens que se sacrificam nos seus exércitos.

Também ele personaliza o desalento, o pessimismo e a decepção do povo que vê adiada a possibilidade de mudança com a prisão do general.

 

ESPAÇO

 

Espaço cénico

 

O espaço cénico contribui para a construção de sentidos da obra, expondo a dimensão ideológica da mesma. Os sons, os jogos de luz/sombra, os objectos decorativos e a posição das personagens em palco são os elementos a destacar.

 

Manuel, situado num espaço cénico dominado pela escuridão, é subitamente exposto à luz, ocupando um lugar à frente do palco. O carácter simbólico da sua presença é posto em evidência através dos seguintes aspectos:

 A personagem, enquanto símbolo do povo oprimido, traduz a estagnação de um país, a impossibilidade de mudança, pela repressão imposta pelo Poder, através da sua pergunta absurda, do gesto de impotência e dos trajes andrajosos que veste;

 A escuridão que rodeia a personagem sugere a miséria, a ignorância e a opressão;

 A nível da movimentação, a impossibilidade de continuar, por parte da personagem («detém-se»), indicia a perda irremediável do general Gomes Freire e, em consequência, a perda da esperança.

 

ESPAÇO SOCIAL

 

Classes sociais: Povo / Poderosos

 

O povo é caracterizado pela sua pobreza, doença e miséria: o vestuário andrajoso, os sacos e caixotes que servem de acomodações, o contínuo mendigar.

Os poderosos, pelo contrário, surgem representados na sua riqueza ostensiva e arrogante (guarda-roupa cuidado, cadeiras como «tronos»).

 

No período posterior às Invasões Francesas e à partida da corte para o Brasil, o reino vive uma conjuntura política e social marcada pela crise e pela luta entre um poder repressivo e a aspiração da liberdade que conduzirá à revolução liberal: o Conselho de Regência, que integrava oficiais ingleses e membros do clero, mantém uma política de tirania, repressão e perseguição de todos os que se insurgissem contra o poder oficial. O povo, descontente, votado à miséria e ao silêncio, mas desejoso de liberdade, confere ao general Gomes Freire o estatuto de herói, já que representa a única esperança de revolta contra a opressão.

 

VALORES SOCIAIS EM CRISE

 

A impotência do povo contra o despotismo

 

Manuel, o homem do povo, reflecte sobre a sua incapacidade para resistir ao sistema, através da interrogação que abre os dois actos («Que posso eu fazer?»).

 

 A recusa do progresso e da cultura

 

O Principal Sousa clarifica as directrizes de um regime absolutista, em que cultura é sinónimo de poder e, por isso, deve ser mantida inacessível às massas populares («...a sabedoria é tão perigosa como a ignorância! (...) Sei bem como a palavra “liberdade”, na boca dos demagogos, se torna aliciante ...»; «Por essas aldeias fora é cada vez maior o número dos que só pensam aprender a ler... Dizem-me que se fala abertamente em guilhotinas e que o povo canta pelas ruas canções subversivas.»).

 

A corrupção, a imoralidade e a injustiça dos políticos

 

D. Miguel põe em destaque a corrupção que garante a autoridade do Poder («A questão que temos de resolver (...) Consiste apenas em chegarmos a acordo acerca da pessoa que mais nos convém que tenha sido o chefe a conjura.»), deixando também evidente que são os caprichos pessoais que motivam a actuação política («Para o público não compreender o que se passa, o julgamento será secreto, e para evitar o perdão de el-rei, a execução seguir-se-á imediatamente à sentença.» ).

 

A ambição mesquinha e a conspiração

 

Beresford mantém-se atento à defesa dos interesses do reino («Neste país de intrigas e de traições, só se entendem uns com os outros para destruir um inimigo comum...»), mas apenas por interesses materiais, não escondendo o seu desprezo pelo país onde trabalha.

 

A traição, a conspiração generalizada

 

A corrupção material e moral parece atingir todas as classes sociais, como se depreende da traição de Vicente e de Andrade Corvo e Morais Sarmento («Se eu souber render o peixe, sou capaz de acabar com uma capela... ou chefe de polícia, quem sabe?»; «Meu amigo: você desconhece o que se compra de respeitabilidade com uma pensão anual de 800$00...»).

 

SIMBOLOGIA

 

Luar

 

Para D. Miguel, o luar permitirá que o clarão da fogueira atemorize todos os que querem lutar pela liberdade, confirmando assim o efeito dissuasor e exemplar das execuções perante aqueles que ousassem desafiar a autoridade dos Governadores.

 

Para Matilde, o luar sublinhará a intensidade do fogo, que simboliza a coragem e a força de um homem que morreu pela liberdade e, por isso, se torna símbolo do esclarecimento e da revolta contra a tirania (anúncio da revolução liberal / 25 de Abril?).

 

Fogo

 

A fogueira acaba por ter um carácter redentor, simbolizando a purificação, a morte da «velha ordem», a vida e o conhecimento. O fogo traduz a chama que se mantém viva e a fé na liberdade que há-se chegar («Julguei que isto era o fim e afinal é o princípio. Aquela fogueira, António, há-de incendiar esta terra!»).

 

Luz / noite

 

A luz traduz a caminhada da sociedade em direcção à liberdade, vencendo o medo e a insegurança da noite, recusando a violência e a repressão. A luz é a metáfora do conhecimento que permite o progresso da sociedade, assente na defesa dos valores da liberdade, da igualdade e da fraternidade.

 

A noite (escuridão, trevas) representa a morte, a repressão, a violência, o castigo, o obscurantismo, a conspiração («Como é que se pode lutar contra a noite?»).

 

Saia verde

 

Símbolo de esperança na renovação, da superação da violência e da repressão, da defesa da liberdade (fora comprada em Paris, foco dos ideais revolucionários liberais).

Traduz o amor verdadeiro e redentor, capaz de conduzir a personagem a superar o seu estado de revolta e a comunicar aos outros, apáticos e indiferentes, o futuro, a esperança.

 

Moeda

 

Simboliza a miséria, a pobreza de um povo que mendiga pela sobrevivência, pela dignidade, pelo direito à vida e à liberdade.

Traduz a traição, a corrupção, a submissão dos poderosos a interesses mesquinhos e materiais (Matilde, quando a atira ao Principal Sousa, lembra a bíblica traição de Judas).

 

Tambores

 

Símbolos da repressão militar e policial que desagrega e aniquila, traduzem a morte, a violência e a intimidante perseguição a que o povo era sujeito para não pôr em causa a autoridade tirânica dos governadores, «sempre presente e sempre pronta a intervir».

 

Sinos

 

Traduzem o perverso envolvimento da Igreja nos assuntos do Estado, contribuindo para a repressão imposta sobre o povo (anunciam a morte de Gomes Freire).

 

Cadeiras

 

Descritas como «pesadas e ricas com aparência de tronos», simbolizam a opulência, o poder tirânico e absolutista dos governadores e a violência e caducidade do sistema monárquico.

 

LINGUAGEM

 

Oralidade / ironia crítica

 

A linguagem da obra é natural, viva, próxima do discurso oral (interrogações, exclamações, vocabulário familiar e popular, orações coordenadas, construção sintáctica simples, redundâncias e pleonasmos...) e tradutora das emoções das personagens (hesitação, interrupção...), mas surge também dominada pela ironia e pelo sarcasmo.

 

Conflito poder / antipoder

 

A linguagem traduz assim o conflito entre o poder e o antipoder:

 A linguagem dos representantes do poder evidencia um sentido prático, utilitário e material da vida. As falas são mais longas, excessivamente discursivas.

 A voz do contrapoder (Matilde, povo) ganha frequentemente um sentido poético, expondo a afectividade e os dramas interiores das personagens.

 A ironia, porém, funciona como denúncia crítica da hipocrisia e da violência dos que representam o poder. O discurso do autor/encenador é essencialmente valorativo, uma vez que convida o espectador a assumir uma atitude crítica em relação aos factos apresentados.

publicado por esjapportugues12 às 16:13

Fevereiro 25 2010

OS LUSÍADAS

 

 

O ELOGIO PÁTRIO

 

Camões celebra em Os Lusíadas a acção grandiosa e heróica dos Portugueses que deram início a um vasto Império que se estendeu pelos diversos continentes. Ao relatar a viagem à Índia, entrecortando-a com episódios do passado e profecias do futuro, mostra a história de um povo que teve a ousadia da aventura marítima, «dando novos mundos ao mundo».

 

Os Lusíadas surgem assim como uma epopeia das façanhas dos portugueses nos mares que os levaram à Índia, trazendo ao conhecimento povos remotos, lugares ignorados e inóspitos, unificando civilizacionalmente os cinco continentes.

 

É uma obra que celebra alegoricamente o direito à imortalidade dos nautas portugueses pelos seus feitos históricos, mas recorda ainda fragmentos da história grandiosa de Portugal e profetiza acontecimentos futuros, cuja visão os deuses são capazes de antecipar.

 

Os Lusíadas revelam ainda o espírito do homem da Renascença que acredita na experiência e na razão. Por isso, a exploração marítima levada a cabo pelos Portugueses nada mais é do que a afirmação do espírito empreendedor de um povo, cuja experiência, espírito de aventura e vontade indómita conseguiram superar a fragilidade da sua condição humana.

 

 

A MITIFICAÇÃO DO HERÓI

 

A intenção de exaltar os heróis portugueses que construíram e alargaram o Império levou Camões a torná-los símbolos da capacidade de ultrapassar a «força humana» e de merecerem um lugar entre os seres imortais.

 

Os navegantes, e em especial Vasco da Gama, ultrapassam a sua individualidade e assumem-se como símbolos do heroísmo lusíada, do seu espírito de aventura e da sua acção humanística e civilizacional. Deste modo, numa leitura simbólica, a viagem, mais do que a exploração dos mares, exprime a passagem do desconhecido para o conhecimento, da realidade do Velho Continente e dos seus mitos indefinidos para novas realidades de um planeta a descobrir.

 

 

REFLEXÕES DO POETA

 

Camões, ao longo da obra, faz diversas considerações, referindo, por um lado, os «grandes e gravíssimos perigos» da aventura marítima, chamando a atenção para a tormenta e o dano do mar, a guerra e o engano em terra, mas por outro também faz a apologia da expansão territorial para divulgar a fé cristã, manifestando o seu patriotismo e exortando D. Sebastião a dar continuidade à obra grandiosa do povo português.

 

Assim, se o poeta realça o valor das honras e glórias alcançadas por mérito próprio pelos portugueses, lamenta que estes nem sempre saibam aliar a força e a coragem ao saber e à eloquência, destacando deste modo a importância das artes. Não deixa também de se queixar de todos aqueles que pretendem atingir a imortalidade sem sacrifício, dizendo-lhes que a cobiça, a ambição e a tirania são honras vãs que não dão verdadeiro valor ao homem.

 

 

MENSAGEM

 

 

A VISÃO PROFÉTICA DA HISTÓRIA

 

O poema épico-lírico de Pessoa canta, de forma fragmentária e introspectiva, um Portugal que se encontra em declínio e a necessitar de uma nova força anímica. Depois de relembrar um passado de heroísmo e grandezas, o poeta profetiza, numa perspectiva messiânica, um futuro que cumpra Portugal, o surgimento de um novo império espiritual e civilizacional, que identifica como o Quinto Império. Pessoa procura assim libertar a pátria de um passado que se desmoronou e encontrar um novo heroísmo que exige grandeza de alma e capacidade de sonhar.

 

 

A ESTRUTURA SIMBÓLICA

 

Os poemas da Mensagem agrupam-se em três partes, correspondentes às etapas da evolução do Império português: Brasão (fundação da nacionalidade), Mar Português (realização do sonho marítimo) e O Encoberto (dissolução do império).

 

A inspiração da obra prende-se com o mito sebastianista, que exprime o drama de um país moribundo, à «beira mágoa», a necessitar de acreditar de novo nas suas capacidades e valores que antigamente lhe permitiram a conquista dos mares e a sua afirmação no mundo.

 

O rei desaparecido em Alcácer Quibir simboliza a ideia de um retomar do heroísmo pátrio que se configura não no âmbito de um império territorial, mas espiritual. O Quinto Império seria, para Fernando Pessoa, um novo império civilizacional, cultural e espiritual. Reavivando o mito sebastianista, anunciando o Quinto Império, o Poeta procurou, tal como Camões, ser a voz da consciência da identidade que Portugal necessitava.

 

 

HERÓIS

 

À semelhança de Os Lusíadas, Pessoa elogia todas as figuras que no passado engrandeceram o nome de Portugal. Os heróis míticos surgem ligados à formação e consolidação da nacionalidade, às descobertas e expansão imperial e como esperança de um novo império.

 

Estes heróis são inspirados por uma missão transcendente, cumprindo um dever individual e pátrio e, por isso, alcançam a imortalidade. A sintonia entre a vontade divina e o sonho humano funda uma atitude de incessante busca, representada pelo desejo de chegar mais além, pela firmeza com que o Português combate o medo e vitoriosamente reclama o domínio do mar e de mundos antes desconhecidos.

 

 

 

 

SIMBOLOGIA DAS OBRAS

 

Os Lusíadas de Camões são uma alegoria, com a intriga dos deuses mitológicos a darem unidade à acção e a favorecerem o seu desenvolvimento, exprimindo as forças e dificuldades que se apresentavam ao espírito humano na aventura marítima. Estes são seres efabulados que mostram que os nautas e todos os heróis lusíadas merecem a imortalização.

 

A Mensagem de Fernando Pessoa é uma obra mítica e simbólica, dando conta do Portugal erguido pelo esforço dos heróis e destinado a grandes feitos. No entanto, perante a decadência e a desintegração do império, a obra apela a um novo ímpeto para superar um presente de sofrimento e de mágoa, pois falta «cumprir-se Portugal», que ressurgirá em todo o esplendor no Quinto Império.

publicado por esjapportugues12 às 15:47

Janeiro 19 2010

Características da poesia de Campos nas duas estrofes iniciais de Ode Triunfal

 

 

 Patrícia Ribeiro, 12.º E

 

 

As duas estrofes iniciais do poema Ode Triunfal, de Álvaro de Campos, remetem para a fase futurista-sensacionista.

Na linha do futurismo, o sujeito poético exalta todas as dinâmicas, a velocidade, a força, o movimento («Forte espasmo retido nos maquinismos em fúria…») e, inspirado pelo sensacionismo, afirma que a única realidade é a sensação.

Detentor de uma personalidade forte, nervosa, e de uma imaginação torrencial e exaltada, o sujeito poético identifica-se com as coisas mais aberrantes desta nova realidade mecânica e industrial («E arde-me a cabeça de vos querer cantar com um excesso…»; «Tenho os lábios secos, ó grandes ruídos modernos…»).

Nesta fase, Campos recorre ainda a um universo de conceitos desprovidos de carga poética para cantar a civilização moderna, celebrando o triunfo da máquina, da energia mecânica e do progresso técnico («Ó rodas, ó engrenagens, r-r-r-r-r-r eterno!»).

publicado por esjapportugues12 às 16:10

Janeiro 12 2010

ODE TRIUNFAL

 

Correcção do Guião de Leitura

 

Grupo A

 

 

 

1.  Identifica a importância do título «Ode Triunfal».

 

A palavra «ode», de origem grega, significa um cântico laudatório de uma pessoa, instituição ou acontecimento, por isso, associada ao adjectivo «triunfal», traduz algo de grandioso, espectacular, sublinhando, deste modo, a intenção do sujeito poético de celebrar a modernidade, o triunfo da civilização técnica e industrial.

 

2. Indica a situação em que se encontra o sujeito poético, no início do texto.

 

O sujeito poético, exposto à «dolorosa luz das grandes lâmpadas eléctricas da fábrica», sente-se debilitado pela febre e, por isso, mais intensamente permeável aos ruídos, aos odores, aos movimentos alucinantes das máquinas («Tenho os lábios secos, ó grandes ruídos modernos,/ De vos ouvir demasiadamente de perto…»). O estado nevrótico do sujeito poético fá-lo sentir-se simultaneamente incomodado e arrebatado pelos «maquinismos em fúria» («Escrevo rangendo os dentes…»; «Em fúria fora e dentro de mim…»; «…todos os meus nervos dissecados fora…»), não conseguindo resistir à multiplicidade de sensações que a modernidade lhe proporciona («E arde-me a cabeça de vos querer cantar com um excesso…»).

 

3. Diz de que modo o poema é uma celebração da modernidade.

 

Numa tentativa de celebrar a civilização moderna e cosmopolita, de glorificar o progresso e as conquistas tecnológicas e mecânicas, o sujeito poético evoca a «embriaguez» de tudo o que é novo, fruto do génio criador do homem. Evoca os «grandes ruídos modernos», as «máquinas», «todas as dinâmicas», acompanhando o ritmo alucinante da contemporaneidade. Sente-se perfeitamente em sintonia com uma realidade, onde a energia, a mecânica e a força têm expressão máxima, por isso diz querer «abrir-se completamente, tornar-se passento a todos os perfumes de óleos e calores e carvões» de uma «flora estupenda, negra, artificial», em «fraternidade com todas as dinâmicas».

 

4. Retira do texto exemplos do sensacionismo de Campos.

 

A embriaguez da modernidade e a entrega voluptuosa do sujeito poético à violência das sensações são características da poesia de Campos. O progresso mecânico e industrial arrasta-o para um universo de sensações novas e violentas, numa espécie de delírio, deixando-o entregue a essa nova realidade de força, energia, velocidade e movimento («…querer cantar com um excesso / De expressão de todas as minhas sensações…»). O sensacionismo de Campos, de cariz masoquista e sensualista, apela a um gozo orgíaco e extremo: «Eu podia morrer triturado por um motor / Com o sentimento de deliciosa entrega duma mulher possuída.»; «Metam-me debaixo dos comboios! / Espanquem-me a bordo dos navios!».

 

5. Mostra que a glorificação da contemporaneidade alterna com a denúncia dos aspectos mais negativos do progresso.

 

A impetuosa celebração da modernidade é atenuada pela atitude irónica do sujeito poético na denúncia dos efeitos perversos do progresso civilizacional. Assim, o sujeito critica a imoralidade e a desumanidade da «gente ordinária e suja», incomoda-se com a miséria da «gente humana que vive como cães», ofende-se perante a perversidade de todos os que estão «abaixo de todos os sistemas morais», comove-se com esta «fauna maravilhosa do fundo do mar da vida». A sua atitude crítica estende-se até à decadência da sociedade, mergulhada em «corrupções políticas», «escândalos financeiros e diplomáticos», «agressões políticas nas ruas».

 

6. Comenta a expressividade das exclamações e das enumerações ao longo do excerto.

 

As exclamações traduzem a atitude exaltada e impetuosa do sujeito poético, que tenta apreender de forma desmesurada todos os estímulos da modernidade. O excesso violento de sensações fá-lo evocar realidades novas, num apelo ao gozo quase perverso da agressividade, da dor e do prazer («Com um excesso contemporâneo de vós, ó máquinas!»; «Ah, poder exprimir-me todo como um motor se exprime!»; «Masoquismo através dos maquinismos!»; «Atirem-me para dentro das fornalhas!»). As enumerações expressam o frenético desejo do sujeito poético sentir tudo de todas as maneiras, registando de forma aparentemente caótica as sensações que experimenta («Desta flora estupenda, negra, artificial e insaciável!»; «A todos os perfumes de óleos e calores e carvões...»).

 

 

Grupo B

 

Álvaro de Campos representa o típico poeta da modernidade, da civilização e da técnica do mundo contemporâneo […].

 

David Mourão-Ferreira, Fernando Pessoa – O Rosto e as Máscaras

 

Tópicos a desenvolver:

 

• Engenheiro naval e viajante, Álvaro de Campos surge como um vanguardista e cosmopolita, exaltando, em tom futurista, a civilização moderna e os valores do progresso;

 

• Cantor do mundo moderno, o poeta procura sentir «tudo de todas as maneiras», seja a força explosiva dos maquinismos, seja a velocidade, a energia, o movimento;

 

• «Poeta da modernidade, Campos tanto celebra a civilização industrial e mecânica, como expressa o desencanto do quotidiano citadino…

 

 

Produção de um texto expositivo-argumentativo:

 

 

  Engenheiro naval e viajante, Álvaro de Campos é figurado, biograficamente, por Fernando Pessoa, como vanguardista e cosmopolita, espelhando-se este perfil particularmente nos poemas em que exalta, em tom futurista, a civilização moderna e os valores do progresso, como é o caso da «Ode Triunfal».

  Cantor do mundo moderno, o poeta procura incessantemente sentir «tudo de todas as maneiras», seja a força explosiva dos maquinismos, seja a velocidade, a energia, o movimento, identificando-se com esta «flora estupenda, negra, artificial e insaciável». O poeta deseja exprimir-se «como um motor se exprime» e «ser completo como uma máquina», numa volúpia de sensações que chega aos extremos do masoquismo («Espanquem-me a bordo de navios!»).

  Poeta da modernidade, Campos tanto celebra, num estilo torrencial, amplo e até violento, a civilização industrial e mecânica, como expressa o desencanto do quotidiano citadino, apontando os efeitos perniciosos do progresso, como a desumanização, a corrupção moral, a hipocrisia («Maravilhosa gente humana que vive como os cães, / Que está abaixo de todos os sistemas morais…»).

  Em Suma, Campos procura ultrapassar os efeitos de uma sensibilidade frágil e doentia através de uma «histeria de sensações» e a força da máquina surge como uma compensação para o seu falhanço pessoal. (199)

publicado por esjapportugues12 às 17:54

Janeiro 07 2010

RICARDO REIS - NÃO TENHAS NADA NAS MÃOS

 

Correcção do guião de leitura (manual, página 91)

Não tenhas nada nas mãos

Nem uma memória na alma,

 

Que quando te puserem

Nas mãos o óbolo último,

 

Ao abrirem-te as mãos

Nada te cairá.[…]

 

1. Os versos «Não tenhas nada nas mãos / Nem uma memória na alma…» remetem para a filosofia epicurista defendida por Ricardo Reis, que apela à moderação das emoções, renunciando ao prazer, abstendo-se de qualquer desejo ou vontade, numa atitude contemplativa perante a vida. Defendendo a necessidade de viver num estado de profunda serenidade e desprendimento, o sujeito procura assim iludir o sofrimento que a ideia de morte lhe inspira.

 

2. O conselho do sujeito poético nada mais é do que uma tentativa ilusória para combater a dor e a perturbação causadas pela passagem do tempo e a proximidade da morte. A recusa de qualquer compromisso que comprometa a sua liberdade interior é a única forma de superar a angústia face a uma fatalidade inevitável («Ao abrirem-te as mãos / Nada te cairá.»).

 

3. As interrogativas retóricas apontam para a filosofia estóica, pois o sujeito poético está consciente de que o Fado é inalterável e cabe a cada um, de forma altiva e resignada, aceitar o fim e a morte. O poder, o mérito e a grandeza humana nada valem perante essa cruel certeza: tudo é efémero e está condenado à fatalidade («Que trono te querem dar / Que Átropos to não tire?»).

 

4. As expressões «Colhe flores» e «Senta-te ao sol» estão relacionadas com a filosofia horaciana do carpe diem, aproveitar o momento presente, de forma serena e contida, para evitar qualquer perturbação. A expressão «larga-as da mão» sugere uma atitude epicurista, convidando à recusa de qualquer emoção intensa, porque só recusando os compromissos é que se conhece a verdadeira tranquilidade.

 

5. O verbo abdicar traduz a ideia de recusa, de abandono. Assim, os últimos versos do poema («Abdica/ E sê rei de ti próprio.») sugerem que só é possível evitar a dor e a perturbação através da aceitação lúcida e resignada das leis da vida, no limitado espaço de liberdade de que dispomos (estoicismo).

 

 

 

RICARDO REIS – UNS, COM OS OLHOS POSTOS NO PASSADO

 

Correcção do guião de leitura (manual, página 92)

 

 

Uns, com os olhos postos no passado,

Vêem o que não vêem; outros, fitos

Os mesmos olhos no futuro, vêem

O que não pode ver-se. […]

 

1. O sujeito reconhece que há quem olhe para o passado, mas esse apenas vê um simulacro da realidade, porque esta não existe no presente (“Uns, com os olhos postos no passado,/ Vêem o que não vêem...”). Há ainda “outros” que olham o futuro, mas “vêem/ O que não pode ver-se”, ou seja, imaginam o que ainda não existe e, como tal, retêm da realidade uma imagem enganosa.

 

2. Para o sujeito, a única realidade concreta é o presente, por isso faz a apologia da vivência do momento (carpe diem), influenciado pela sabedoria horaciana, considerando um engano a construção da existência a partir de um passado morto (“Vêem o que não vêem...”) ou de um futuro incerto (“...vêem/ O que não pode ver-se.”). Sabendo que a morte é certa e que nada pode contrariar o Destino, o sujeito adopta a filosofia estóica, reconhecendo assim a inutilidade de qualquer esforço humano para modificar o que já está determinado (“O Fado nos dispõe, e ali ficamos;/ Que a Sorte nos fez postos/ Onde houvemos de sê-lo.”).

 

3. O sujeito poético defende o epicurismo, pois sabe que é em cada instante vivido que o homem se realiza (“Colhe/ O dia, porque és ele.”) e conquista uma felicidade possível (“A segurança nossa...”), superando a angústia causada pela consciência da brevidade da vida (“Este é o dia, / Esta é a hora, este o momento, isto / É quem somos…”), face à ameaça do tempo destruidor (“Perene flui a interminável hora/ Que nos confessa nulos.”).

 

4. O sujeito poético denuncia a sua angústia perante a efemeridade da vida e a passagem inexorável do tempo que o conduzirá fatalmente à morte (“Perene flui a interminável hora/ Que nos confessa nulos.”). O desespero perante a inevitabilidade do Destino e da morte (“O Fado nos dispõe....”; “...morreremos...”) obriga o sujeito a procurar uma filosofia de vida que lhe permita superar o sofrimento e atingir uma felicidade ainda que relativa (a defesa do presente como tempo de realização do homem, a única temporalidade ao seu alcance: “Colhe/ O dia, porque és ele.”).

 

5. A afirmação “Colhe/ O dia, porque és ele.” traduz o ideal epicurista do gozo moderado, disciplinado, do momento presente.

 

6. Entre os recursos expressivos que se destacam neste poema, saliente-se a presença da adjectivação e do hipérbato que põem em evidência a efemeridade da vida face ao fluir inexorável do tempo que conduz o sujeito poético à morte (“Perene flui a interminável hora/ Que nos confessa nulos.”). Além disso, a metáfora põe em destaque o poder inelutável do Destino a que a vida humana é sujeita, anulando qualquer tentativa de fuga - o homem torna-se joguete de uma entidade sobrenatural, contra a qual é inútil a sua vontade ou esforço (“No mesmo hausto / Em que vivemos, morreremos.”).

publicado por esjapportugues12 às 13:18

Novembro 13 2009

TEXTO EXPOSITIVO-ARGUMENTATIVO

 

 

 


 

A produção de um texto expositivo-argumentativo visa avaliar competências como a compreensão de enunciados escritos e a expressão escrita, visíveis na construção de um texto que pressupõe a compreensão da tese formulada no enunciado, a exposição de uma opinião e a selecção de argumentos, bem como a produção de um discurso correcto e bem estruturado. Este texto deverá revelar uma análise crítica e pessoal do enunciado da pergunta, reflectindo o conhecimento que possui da obra, do autor, do período literário ou do tema em causa.


COMO ELABORAR UM TEXTO EXPOSITIVO ARGUMENTATIVO?

 

 

- Ler atentamente o enunciado contido na questão formulada (normalmente é a citação de uma obra ou uma simples afirmação) e identificar de imediato o autor, a obra e o movimento literário que servirá de base à argumentação, ou o tema genérico a explorar;

 

- Planear a estrutura do texto: clarificar o ponto de vista, seleccionar os tópicos a desenvolver ao longo do texto a produzir, devidamente encadeados, para evitar repetições e incoerências;

 

- Comprovar cada argumento com exemplos concretos e bem fundamentados na obra do autor ou com exemplos significativos relacionados com o tema em reflexão;

 

- Proceder à redacção do texto, começando por uma breve introdução do tema, desenvolver a argumentação, articulando bem os parágrafos e, no final, como conclusão, sintetizar as ideias centrais apresentadas;

 

- Utilizar um vocabulário diversificado e preciso e um correcto registo de língua.


COTAÇÃO (exame nacional)

 

 

Na prova de exame, o texto expositivo-argumentativo é avaliado, tendo em conta as seguintes competências:

 

 Estruturação de um texto com recurso a estratégias adequadas à defesa de um ponto de vista, sem desvios ao tema proposto;

 

 Elaboração de um texto coerente e coeso, com argumentos lógicos bem articulados e devidamente suportados por exemplos significativos (deve atentar-se no número de argumentos pedidos e respectivos exemplos);


 Redacção de um discurso bem estruturado (introdução, desenvolvimento, conclusão), com recurso a conectores frásicos adequados e diversificados;

 

 Produção de um discurso correcto nos planos lexical, morfológico, sintáctico, ortográfico e de pontuação, com marcação correcta dos parágrafos e respeito pelo limite de palavras.


 

 

EXERCÍCIO PRÁTICO 1

 

 

 

“Reis […] manifesta uma aguda mas estóica sensibilidade em relação ao tema da passagem do tempo.”
 

 

Maria Alzira Seixo, Singularidades de uma Literatura Ocidental, Asa, 2001


Considere o juízo crítico apresentado e comente-o, fundamentando-o na sua experiência de leitor. Redija um texto expositivo-argumentativo bem estruturado, de duzentas a trezentas palavras.

 

 

 

Tópicos a desenvolver:

 

• Dor da efemeridade da vida;
• Consciência do poder implacável do destino (fatum);
• Defesa de uma filosofia de vida estóico-epicurista;
• Aceitação e consciência da subordinação do Homem face ao fatum;
• O carpe diem e a mágoa profunda, mas serena, resultante dessa consciência.


Produção de um texto expositivo-argumentativo

 

 

Ricardo Reis reconhece a inexorabilidade da passagem do tempo, tendo plena consciência da dor provocada pela natureza efémera do homem.

 

Consciente do poder implacável do Destino (fatum), que condiciona a existência humana como uma mera passagem, tendo como fim a morte - «passamos como um rio» -, Reis é defensor de uma filosofia de vida estóico-epicurista, capaz de conduzir o homem numa existência sem inquietações e sem angústias, e aceita o destino que lhe é imposto, contentando-se em gozar a vida moderadamente e através do exercício da razão. Para tal, sugere um esforço de autocontrolo que evite as paixões que acarretam sofrimento. Vivendo o momento presente e acreditando no poder da razão, transfigura-se a emoção em indiferença «sem amores, sem ódios, nem paixões que levantem a voz», deixando fluir o tempo, cuja passagem é simbolizada pela passagem das águas do rio.

 

Como só o momento presente nos pertence, cabe ao homem viver esse momento (carpe diem) e, por esse motivo, Reis revela na sua poesia a profunda e serena mágoa, resultante da consciência do poder devorador do tempo.
Dado que «Amanhã não existe», Ricardo reis consegue a felicidade pela ataraxia - «mais vale saber passar silenciosamente / e sem desassossegos grandes» - e pela aceitação da morte e do destino - «nada, salvo o desejo de indif’rença / E a confiança mole / na hora fugidia». (226)


 

 

 

EXERCÍCIO PRÁTICO 2

 


Num texto bem estruturado, com um mínimo de duzentas palavras e um máximo de trezentas palavras, apresente uma reflexão sobre as ideias expressas no excerto a seguir transcrito, relativas à tendência para se investir no espaço pessoal e se esquecer o espaço público. Para fundamentar o seu ponto de vista, recorra, no mínimo, a dois argumentos, ilustrando cada um deles com, pelo menos, um exemplo significativo.

 


“Ao longo da vida, a tendência é para as pessoas passarem cada vez mais tempo sozinhas e fechadas dentro das suas casas, transformadas em verdadeiras «torres de marfim». A maneira como se acumulam bens físicos e se procura melhorar os espaços domésticos reflecte um cada vez maior alheamento em relação ao espaço público colectivo, que raramente é pensado como um bem comum.”

 

Teresa Alves, “Territórios do Nada entre a Esperança e a Utopia”, 2002

 

 

 

Produção de um texto expositivo-argumentativo

 

 


A tendência para se investir no espaço pessoal em detrimento do espaço público tem vindo a aumentar nas sociedades modernas. Antigamente, as pessoas viviam mais abertas ao outro, o tempo que passavam em conjunto era muito maior e existia o café, o largo, a igreja, como pontos de encontro de final de dia para todos conviverem e se encontrarem. Todos se conheciam e o outro funcionava como um escape, um suporte.

 

Com o êxodo rural e com a migração para as grandes cidades, a par do crescimento tecnológico, tudo se foi alterando. A televisão, por exemplo, fazia com que todos se encontrassem no café mais abastado para visionarem os programas emitidos pela «caixinha mágica». Gradualmente, todas as casas foram tendo o seu próprio aparelho, o que resultou num afastamento. O serão já não era passado na colectividade, mas na individualidade de cada lar. E assim tem sido, cada vez mais as pessoas vivem entregues a si próprias: recheiam-se as casas com o mais moderno dos equipamentos, há um investimento consumista para optimizar o espaço individual, porque deixou de haver tempo e necessidade de estar com outras pessoas. Cada um, pelas exigências da vida moderna, passou a ser auto-suficiente. E isto reflectiu-se em alheamento relativamente aos espaços públicos colectivos: cada um deixou de sentir como seu um espaço que já não frequenta, logo, não cuida, não investe nele, simplesmente porque não o utiliza. Até mesmo as crianças, que brincavam em conjunto nos parques infantis ou nos campos de jogos deixaram de o fazer, porque ficam confinadas, sozinhas, frente ao computador ou à Playstation.

 

Em suma, já ninguém reivindica a criação ou a melhoria dos espaços públicos, porque eles foram substituídos pela nossa casa, onde temos todo o sossego e conforto. (289)

 

publicado por esjapportugues12 às 11:05

Novembro 12 2009

GÉNESE I CONTEXTUALIZAÇÃO I CARÁCTER ÉPICO-LÍRICO DA OBRA

 

 

 

 

A Mensagem, publicada em 1934, é uma colectânea que reúne poemas de carácter nacionalista e sebastianista. Na opinião do poeta, havia-se perdido a identidade nacional, os feitos heróicos perderam-se com o tempo e só já restava a sua memória. Então, nada melhor que recuperar um mito para fazer ressurgir das cinzas uma nação ("O mito é o nada que é tudo", em "Ulisses").

Pessoa acreditava no destino messiânico de Portugal e acreditava também que o saudosismo que preenchia os corações dos portugueses poderia ser o ponto de partida, a motivação para a tentativa de recuperação de uma imagem pátria que morrera com o passado.

 

Camões cantara os feitos heróicos dos portugueses, na época dos Descobrimentos; Fernando Pessoa pretendeu essencialmente enobrecer a glória que está subjacente à realização dos acontecimentos que engrandeceram a História nacional. Nesta obra, são enunciados factos históricos, exaltados de uma maneira que faz ecoar a epopeia, contudo, sentidos por um "eu" que impregna os poemas de uma subjectividade misturada de uma simbologia que não permite uma interpretação ingénua dos mesmos. Assim, a Mensagem, apesar de possuir um carácter lírico, apresenta uma faceta épica, carácter épico-lírico, diferente da de Camões (que cantava os feitos gloriosos de um herói), pois o poeta modernista enaltece a heroicidade do ser humano, através da espiritualização progressiva, tirando partido do mito sebastianista. Através do sonho, poder-se-ia construir um império perfeito e espiritual que teria como finalidade a construção da paz universal.

 

A hipótese de salvação e regeneração que D. Sebastião representa para o povo português é a base desta obra, pois é a partir do mito que se deve tentar transformar a realidade. Já aquando da sua participação na revista A Águia, Fernando Pessoa se revelava sebastianista, prevendo até o aparecimento de um Super-Camões, cantor do Quinto Império, que seria um Super-Portugal. Este Quinto Império, já vaticinado por Padre António Vieira, profeta e visionário, não se trata de um império terreno, mas sim espiritual. Pessoa opõe ao sebastianismo passadista e tradicional um outro para o futuro, concretamente virado para a construção de um império da língua e cultura portuguesas ("Minha pátria é a língua portuguesa.”).

 

O que Fernando Pessoa realiza, através da Mensagem, é um apelo para que se entenda que os feitos do passado não se extinguiram - na sua essência, existe uma força propulsora cujo dinamismo é a própria natureza humana, que se projecta sempre que há um ideal (“Deus quer, o homem sonha, a obra nasce”, em “O Infante”).

A literatura, para o poeta, assumia um papel importantíssimo, capaz de influenciar várias épocas e transmitir civilização. Como tal, o autor da Mensagem acreditava que, através da sua produção literária, realizaria o seu grande objectivo: arrancar Portugal do século XX da estagnação que o caracterizava, lançando no país a agitação que permitiria ao português sentir novamente a ânsia da sua grandeza esquecida e vivida numa nostalgia sem brilho nem esperança. O importante é ser-se genuíno e que, como os portugueses do século XV; se contribua para a construção de um império unificador e cultural que se encontra para além do material A missão dos portugueses ainda não está cumprida, isto é, a conquista do mar não foi suficiente; há que sonhar novamente para se cumprir Portugal (“Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez. / Senhor, falta cumprir-se Portugal!”, em “O Infante”). 

 

 

 

 

A Mensagem encontra-se dividida em três partes, cada uma delas subdividida noutras. Esta tripartição é simbólica e tem como base o facto de as profecias se realizarem três vezes, ainda que de modo e tempos diferentes. Corresponde à evolução do Império Português que, tal como o ciclo da vida, passa pelo nascimento, realização e morte. Todavia, esta morte não poderá ser entendida como um fim definitivo, visto que a morte pressupõe uma ressurreição. Esta ressurreição culmina com o aparecimento de um novo império, desta vez não terreno, mas sim espiritual e cultural, a fim de atingir a paz universal ("E a nossa grande Raça partirá em busca de uma índia nova, que não existe no espaço, em naus que são construídas daquilo de que os sonhos são feitos" - Fernando Pessoa).

 

Fernando Pessoa, que desejava ser um criador de mitos, apela ao mito sebastianista, à vinda de um messias que viria cumprir Portugal. Assim, o Encoberto (D. Sebastião) foi o escolhido para realizar o sonho do Quinto Império. Esta tarefa só seria cumprida com muita determinação, loucura e sonho que tão bem caracterizam D. Sebastião ("Louco, sim, louco, porque quis grandeza", em “D. Sebastião, Rei de Portugal”).

Cada uma das partes da Mensagem começa com uma expressão latina, adequada à parte simbólica a que pertence. Fernando Pessoa inicia a obra com a expressão latina Benedictus Dominus Deus noster que dedit nobis signum ("Bendito o Senhor Nosso Deus que nos deu o sinal") que nos remete para o carácter simbólico e messiânico da Mensagem

 

 

 

A 1ª parte - BRASÃO - faz desfilar os heróis lendários ou históricos, desde Ulisses a D. Sebastião, ora invocados pelo poeta, ora definindo-se a si próprios. O poeta começa por fazer a localização de Portugal na Europa e em relação ao Mundo, salientando a sua magnitude; apresenta a definição de mito (de modo paradoxal, pois "O mito é o nada que é tudo"), realçando o seu valor na construção da realidade; apresenta ainda o povo português como o construtor do império marítimo, assim como revela os predestinados, responsáveis pela construção do país.

 

 

 

A 2ª parte - MAR PORTUGUÊS - apresenta poesias inspiradas na ânsia do Desconhecido e no esforço heróico da luta com o Mar. É nesta parte que o poeta salienta a grandeza do sonho convertido em acção, unificando o acto humano e o Destino traçado por Deus. Surge à cabeça desta parte o poema "O Infante", para vincar a relação entre o poder de Deus na criação, o Homem como agente intermediário e a obra como resultado de toda esta relação lógica ("Deus quer, o homem sonha, a obra nasce"). Os outros poemas evocam as glórias e as tormentas passadas ao concretizar-se o sonho dos Descobrimentos.

 

 

A 3ª parte - O ENCOBERTO - apresenta o actual Império moribundo, Portugal baço "a entristecer", pois "Tudo é incerto e derradeiro. / Tudo é disperso, nada é inteiro." (“Nevoeiro”). Face a esta constatação, o poeta considera que chegou a hora de despertarmos para a nossa missão: a constituição de um Quinto Império, um reino de liberdade de espírito e de redenção (“Ó Portugal, hoje és nevoeiro... / É a Hora! ", em "Nevoeiro"). A Mensagem termina com a expressão latina Valete Fratres ("Felicidades, irmãos"), um grito de felicidade e um apelo para que todos lutem por um novo Portugal.

publicado por esjapportugues12 às 14:48

Novembro 09 2009

O ESSENCIAL SOBRE RICARDO REIS

 

 

 

 

Ricardo Reis é o poeta clássico, da serenidade epicurista, que aceita, com calma lucidez, a relatividade e a fugacidade de todas as coisas. "Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio", "Prefiro rosas, meu amor, à pátria" ou " Segue o teu destino” são poemas que nos mostram que este discípulo de Caeiro aceita a antiga crença nos deuses, enquanto disciplinadora das nossas emoções e sentimentos, mas defende, sobretudo, a busca de uma felicidade relativa alcançada pela indiferença à perturbação.

 

A filosofia de vida de Ricardo Reis é a de um epicurismo triste, pois defende o prazer do momento, o "carpe diem", como caminho da felicidade, mas sem ceder aos impulsos dos instintos. Apesar deste prazer que procura e da felicidade que deseja alcançar, considera que nunca se consegue a verdadeira calma e tranquilidade, ou seja, a ataraxia (a tranquilidade sem qualquer perturbação). Sente que tem de viver em conformidade com as leis do destino, indiferente à dor e ao desprazer, numa verdadeira ilusão da felicidade, conseguida pelo esforço estóico lúcido e disciplinado.

 

Ricardo Reis propõe, pois, uma filosofia moral de acordo com os princípios do epicurismo e uma filosofia estóica:

 "carpe diem", ou seja, aproveitai a vida em cada dia, como caminho da felicidade;

 buscar a felicidade com tranquilidade (ataraxia);

 não ceder ao impulso dos instintos (estoicismo);

 procurar a calma ou, pelo menos, a sua ilusão;

 seguir o ideal ético da apatia que permite a ausência da paixão e a liberdade (sobre esta apenas pesa o Fado).

 

O epicurismo consiste na filosofia moral de Epicuro (341-270 a. C.), que defendia o prazer como caminho da felicidade. Mas, para que a satisfação dos desejos seja estável, sem desprazer ou dor, é necessário um estado de ataraxia. O poeta romano Horácio seguiu de perto este pensamento da defesa do prazer do momento, ao considerar o "carpe diem" (aproveitai o dia) como necessário à felicidade.

 

O estoicismo é uma corrente filosófica que considera ser possível encontrar a felicidade desde que se viva em conformidade com as leis do destino que regem o mundo, permanecendo indiferente aos males e às paixões, que são perturbações da razão. O ideal ético é a apatia, que se define como ausência de paixão e permite a liberdade, mesmo sendo escravo.

 

Ricardo Reis, que adquiriu a lição de paganismo espontâneo de Caeiro, cultiva um neoclassicismo neopagão (crê nos deuses e nas presenças quase-divinas que habitam todas as coisas), recorrendo à mitologia greco-latina, e considera a brevidade, a fugacidade e a transitoriedade da vida, pois sabe que o tempo passa e tudo é efémero. Daí fazer a apologia da indiferença solene diante do poder dos deuses e do destino inelutável. Considera que a verdadeira sabedoria de vida é viver de forma equilibrada e serena, "sem desassossegos grandes".

 

A precisão verbal e o recurso à mitologia, associados aos princípios da moral e da estética epicuristas e estóicas ou à tranquila resignação ao destino, são marcas do classicismo erudito de Reis. Poeta clássico, da serenidade, Ricardo Reis privilegia a ode, o epigrama e a elegia. A frase concisa e a sintaxe clássica latina, frequentemente com a inversão da ordem lógica (hipérbatos), favorecem o ritmo das suas ideias lúcidas e disciplinadas.

 

 

RICARDO REIS – O POETA DA RAZÃO

 

 

Personalidade literária 

 

 

 Discípulo de Caeiro, como o Mestre aconselha a aceitação calma da ordem das coisas e faz o elogio da vida campestre, indiferente ao social.

 Faz dos Gregos o modelo da sabedoria (aceitação do Destino de uma forma digna e altiva).

 Tem consciência da dor provocada pela natureza precária do homem. Tem medo da velhice e da morte.

 Crê no Fado (destino), na efemeridade da vida e do tempo.

 Faz o elogio do epicurismo (tendência para a felicidade pela harmonização de todas as faculdades através da disciplina). Os epicuristas procuram o repouso, a ataraxia (ausência de perturbação) e da aponia (ausência de dor) e gozam em profundidade o dia presente (Carpe Diem).

 Faz o elogio do estoicismo. Os estoicistas renunciam aos prazeres, não se apegam demasiado ao momento presente, procurando o sossego, pela renúncia, a indiferença, aceitando voluntariamente um destino involuntário.

 A sabedoria consiste em gozar o presente (Carpe Diem) através de um exercício da razão.  É austero (no sentido clássico do termo), contido, disciplinado, inteligente.

 Neoclassicista formal e ideológico, moralista, epicurista e estóico. É o poeta da razão e da intelectualização das emoções.

 Subordinação do sentimento à razão; repúdio da confusão entre ideias e emoções.

 Paganismo (atitude assumida perante o mundo e que consiste em aceitar qualquer religião e a existência de deuses em tudo e em todas as coisas).

 

 

Arte poética

 

 

 Dramatização do pensamento que condensa na “Ode” (composição poética, para ser cantada, dividida em estrofes simétricas).

 Monólogos estáticos, frequente utilização do hipérbato e de latinismos.

 Objectividade e rigor formal.

 Irregularidade métrica.

 Importância dada ao ritmo como unidade de sentido.

 Gosto pelo uso do gerúndio.

 Uso frequente do imperativo (em consonância com a feição moralista das suas odes).

 Estilo laboriosamente construído, pensado.

publicado por esjapportugues12 às 12:55

Novembro 09 2009

RICARDO REIS – PERFIL LITERÁRIO

 

 

Na carta a Adolfo Casais Monteiro, Pessoa afirma: "(...) Aí por 1912, salvo erro (...), veio-me à ideia escrever uns poemas de índole pagã. Esbocei umas coisas em verso irregular (...) e abandonei o caso. Esboçara-se-me, contudo, numa penumbra mal urdida, um vago retrato da pessoa que estava a fazer aquilo. (Tinha nascido, sem que eu soubesse, o Ricardo Reis)".

 

Apesar de anterior a Caeiro, o novo heterónimo pessoano só surge depois da necessidade de arranjar uns discípulos para o mestre. Ricardo Reis é arrancado “do seu falso paganismo (…) porque nessa altura já o via”. Mais adiante Pessoa diz: “Ricardo Reis nasceu em 1887 (…), no Porto, é médico e está presentemente no Brasil” (por ser monárquico); é “latinista por educação alheia, e um semi-helenista por educação própria”.

 

 

O NEOPAGANISMO

 

 

O paganismo de Reis não é instintivo como o de Caeiro. O do primeiro assenta numa ideologia classicista que lhe permite elevar-se acima do cristianismo e assumir, perante este, uma atitude de desprezo. Como tal, é designado de neopaganismo. Neste sentido, este heterónimo afirma-se crente nos deuses, que estão acima dos homens, mas acima dos dois está ainda o destino (Fatum). Tenta assumir a postura dos deuses, adquirindo, através de um exercício de autodisciplina, a calma e a indiferença, face a um destino já traçado.

 

A poesia de Ricardo Reis apresenta um tom moralista. Nela revela-se um estilo sentencioso, cheio de conselhos morais e de apelo constante à indiferença, factores que lhe conferem um intenso dramatismo e fatalismo (sendo este traçado pelo destino que atribui ao homem uma vida efémera). A herança clássica do poeta revê-se no recurso à ode bem como à mitologia. Preconizado é o regresso à Grécia antiga, por ser considerada um modelo de perfeição. Reis acredita na liberdade concedida pelos deuses ("Só esta liberdade nos concedem / Os deuses...") e propõe que os imitemos ("Nós, imitando os deuses, (...) / Ergamos a nossa vida / E os deuses saberão agradecer-nos / O sermos tão como eles").

 

 

O EPICURISMO E O ESTOICISMO

 

 

Detentor de uma dignidade sóbria, de uma perfeita clareza de ideias e de uma concepção de vida simples, o mais clássico dos heterónimos pessoanos prefere o silêncio nostálgico para enfrentar a Sorte a que os deuses o votaram.

Esta é a atitude que adopta para evitar a dor, para procurar a calma, autodisciplinar-se, nem que para isso tenha de abdicar dos prazeres da vida, tal como preconizava o estoicismo. Reis revela um comportamento reflectido e ponderado, resultante da adopção do epicurismo, que defendia que o sofrimento só pode ser evitado quando não há entrega às grandes paixões ou aos instintos profundos. O prazer, para ser estável e duradoiro, não pode resultar de sentimentos fortes, deve ser ponderado, isto é, doseado pela razão. Por isso, e para se evitarem as preocupações, deve viver-se o momento presente (Carpe diem) e acreditar no poder da razão, remetendo a emoção para a indiferença, "sem amores, nem ódios, nem paixões que levantam a voz", deixando fluir o tempo, simbolizado nas águas do rio, ou amando as rosas, que com ele se identificam pela fragilidade e transitoriedade a que estão sujeitas ("Nascem nascido já o Sol, e acabam / Antes que Apolo deixe / O seu curso visível").

Ricardo Reis procura a ataraxia, que patenteia em vários poemas, por exemplo em "Prefiro rosas, meu amor, à pátria", onde emite o desejo de que a vida não o canse ("Logo que a vida não me canse..."), ou no curto texto que se segue:

 

 

Tão cedo passa tudo quanto passa!

Morre tão jovem ante os deuses quanto

Morre! Tudo é tão pouco!

Nada se sabe, tudo se imagina.

Circunda-te de rosas, ama, bebe

E cala.O mais é nada.

 

 

A composição apresentada reflecte bem a tristeza que parece acompanhar este heterónimo pessoano e que ilustra a seriedade de um homem que se situa entre o não pensamento de Caeiro e a abulia de Fernando Pessoa e de Campos na última fase.

As linhas ideológicas presentes na poesia de Reis reflectem um homem que sofre e vive o drama da transitoriedade da vida, facto que lhe provoca sofrimento (por imaginar antecipadamente a morte). Ressalta, também, o amor à vida rústica e à natureza, a procura da perfeição, a intelectualização das emoções, facetas reveladoras de um homem lúcido e cauteloso, que procura construir uma felicidade relativa, um misto de resignação e gozo moderado, de forma a não comprometer a sua liberdade interior. Nesta linha, preconiza a fruição das coisas, sem demasiado esforço ou risco, e a aceitação de tudo, uma vez que se considera o destino mais importante do que a força humana.

Poeta da razão e defensor de um epicurismo temperado de estoicismo, Ricardo Reis acaba por se aproximar do Campos da terceira fase (abulia) e do ortónimo, pelo tom melancólico que se liberta da sua poesia.

publicado por esjapportugues12 às 12:47

Novembro 06 2009

ANÁLISE DE POEMAS DE ÁLVARO DE CAMPOS

 

FASE DECADENTISTA

 

Opiário

 

                      Ao Senhor Mário de Sá-Carneiro

 

É antes do ópio que a minh' alma é doente.

Sentir a vida convalesce e estiola

E eu vou buscar ao ópio que consola

Um Oriente ao oriente do Oriente.

 

Esta vida de bordo há-de matar-me.

São dias só de febre na cabeça

E, por mais que procure até que adoeça,

Já não encontro a mola pra adaptar-me.

 

Em paradoxo e incompetência astral

Eu vivo a vincos de ouro a minha vida,

Onda onde o pundonor é uma descida

E os próprios gozos gânglios do meu mal.

 

É por um mecanismo de desastres,

Uma engrenagem com volantes falsos,

Que passo entre visões de cadafalsos

Num jardim onde há flores no ar, sem hastes.

                        

                                                                     (excerto)

 

 

Linhas de Leitura

 

 A nostalgia do além, sugerida pelas referências ao Oriente, traduzem a saturação ou a incapacidade de integração na civilização ocidental e remetem o sujeito poético para um estado de divagação alienante e um pessimismo desistente.

 

     «Eu acho que não vale a pena ter ido ao Oriente e visto a índia e a China.»

     «Volto à Europa descontente...»

 

 A evasão através do sonho, da evocação de espaços irreais ou inexistentes, é alternada pela procura de sensações novas e extremas que só a embriaguez do ópio pode proporcionar. No entanto, a falta de vontade e de energia interior parecem anular qualquer solução que este pudesse representar.

 

    «E eu vou buscar ao ópio que consola / Um Oriente...»

    «Por isso eu torno ópio. É um remédio.»

    «Qu' ria outro ópio mais forte...»

 

 O tédio, o cansaço, a apatia, a descrença e a morbidez do sujeito poético traduzem a sua incapacidade de viver a vida, a inércia perante uma existência anuladora e monótona.

 

     «...a minh' alma é doente.»

     «Trabalhei para ter só o cansaço...»

    «E a minha mágoa de viver persiste.»

    «E ver passar a vida faz-me tédio.»

    «Não tenho personalidade alguma.»

 

 A náusea e a demissão da vida, que marcam a poesia decadentista, representam também o assumir de um fracasso pessoal.

 

     «…isto acaba mal e há-de haver (...) sangue e um revólver lá pró fim...»

     «Deixe-me estar aqui, nesta cadeira, / Até virem meter-me no caixão.»

 

 

Recursos expressivos

 

 A atitude irónica ou sarcástica:

 

    «Nasci pra mandarim de condição, / Mas falta-me o sossego, o chá e a esteira.»

    «Quantos sob a casaca característica / Não terão como eu horror à vida?»

 

 O vocabulário entre precioso e banal:

 

    «Em paradoxo e incompetência astral.»

    «...os próprios gozos gânglios do meu mal.»

    «O comissário de bordo é velhaco! Viu-me coa sueca...»

    «Que um raio as parta!»

 

 As imagens e os símbolos:

 

    «Um Oriente ao Oriente do Oriente.»

    «...vincos de ouro...»

    «...minha vida, cânfora na aurora.»

   «O absurdo, como uma flor da tal índia...»

 

 

 

FASE FUTURISTA / SENSACIONISTA

 

 

Ode Triunfal

 

À dolorosa luz das grandes lâmpadas eléctricas da fábrica

Tenho febre e escrevo.

Escrevo rangendo os dentes, fera para a beleza disto,

Para a beleza disto totalmente desconhecida dos antigos.

 

Ó rodas, ó engrenagens, r-r-r-r-r-r eterno!

Forte espasmo retido dos maquinismos em fúria!

Em fúria fora e dentro de mim,

Por todos os meus nervos dissecados fora,

Por todas as papilas fora de tudo com que eu sinto!

Tenho os lábios secos, ó grandes ruídos modernos,

De vos ouvir demasiadamente de perto,

E arde-me a cabeça de vos querer cantar com um excesso

De expressão de todas as minhas sensações,

Com um excesso contemporâneo de vós, ó máquinas!

 

Em febre e olhando os motores como a uma Natureza tropical -

Grandes trópicos humanos de ferro e fogo e força -

Canto, e canto o presente, e também o passado e o futuro -

Porque o presente é todo o passado e o futuro

E há Platão e Virgílio dentro das máquinas e das luzes eléctricas

Só porque houve outrora e foram humanos Virgílio e Platão

E pedaços do Alexandre Magno do século talvez cinquenta,

Átomos que hão-de ir ter febre para o cérebro de Ésquilo do século cem,

Andam por estas correias de transmissão e por estes êmbolos e por estes volantes,

Rugindo, rangendo, ciciando, estrugindo, ferreando,

Fazendo-me um excesso de carícias ao corpo numa só carícia à alma.

 

Ah, poder exprimir-me todo como um motor se exprime!

Ser completo como uma máquina!

                                 

                                                                       (excerto)

 

 

Linhas de Leitura

 

 

IMPORTÂNCIA DO TÍTULO

 

A palavra ode, de origem grega, significa cântico laudatório ou de exaltação de uma pessoa, instituição ou acontecimento. Com o epíteto de Triunfal, pretendeu o poeta não só vincar, mas também hiperbolizar o significado de ode, apontando para qualquer coisa de grandioso, não apenas no conteúdo, mas também na forma, imprimindo-lhe uma sugestão de força ou exagero, em nítida coerência com a estética do Futurismo / Sensacionismo.

 

 

ASSUNTO

 

Sob influência de Marinetti e Walt Whitman, a Ode Triunfal canta o triunfo da técnica, as máquinas, os motores, a velocidade, a civilização mecânica e industrial, o comércio, os escândalos da contemporaneidade... Sentir tudo de todas as maneiras é o ideal esfuziantemente revelado pelo sujeito poético, sentir tudo numa histeria de sensações, que lhe permitam identificar-se com as coisas mais aberrantes («Ah, poder exprimir-me todo como um motor se exprime!/ Ser completo como uma máquina!»).

 

DESENVOLVIMENTO DO ASSUNTO

 

 

A exaltação da civilização moderna

 

O poema começa com uma estranha iluminação de lâmpadas eléctricas. Despertando em sobressalto e em sonhos febris, o sujeito poético reconhece-se transportado para o meio de uma fábrica em actividade. O homem adoentado, enfraquecido pela febre, exposto a estes barulhos, é subitamente arrebatado pelas oscilações dos motores e a sua cabeça abrasada começa a vibrar também. Diante dos seus olhos acumula-se uma multiplicidade de impressões e todos os seus sentidos estão despertos: «Tenho os lábios secos, ó grandes ruídos modernos, / De vos ouvir demasiadamente perto, / E arde-me a cabeça de vos querer cantar com um excesso / De expressão de todas as minhas sensações...».

A fábrica aparece então como motivo inspirador para a homenagem a esta civilização moderna, que submerge o eu poético, nevrótico e fragilizado («tenho febre»; «fúria fora e dentro de mim», «meus nervos», «arde-me a cabeça»). É este universo de «lâmpadas eléctricas», «rodas», «engrenagens», «máquinas», «correias de transmissão», «êmbolos» e «volantes» que o faz sentir-se simultaneamente incomodado e atraído pela ruidosa dinâmica dos «maquinismos em fúria».

 

A vertigem das sensações

 

Estabelecendo com esta «flora estupenda, negra, artificial e insaciável» uma ligação eufórica e exaltada, o sujeito poético deixa-se seduzir vertiginosamente por um excesso de sensações que mal tem tempo de fixar na sua «mente turbulenta e encandescida». Sente-se arrebatado por um universo, onde a velocidade, a força e o progresso têm expressão e, por isso, confessa: «Nem sei se existo para dentro. Giro, rodeio, engenho-me. / Eia! sou o calor mecânico e a electricidade!». A violência de sensações fá-lo desejar «ser toda a gente e toda a parte» e limitar a si próprio e ao gozo do instante qualquer noção de temporalidade («O Momento estridentemente ruidoso e mecânico....»).

 

A temporalidade unificada

 

O fulcro do tempo é, assim, o presente, o instante em que o sujeito poético se mostra permeável a todos os estímulos da civilização mecânica e industrial, porque o presente é uma síntese do passado e do futuro («Porque o presente é todo o passado e todo o futuro...»; «Eia todo o passado dentro do presente! / Eia todo o futuro já dentro de nós!»).

 

A atracção erótica pelas máquinas

 

Esta visão excessiva e intensa do real provoca no sujeito poético um estado de quase alucinação, marcadamente sensual: «Fazendo-me um excesso de carícias ao corpo numa só carícia à alma.»; «Poder ao menos penetrar-me fisicamente de tudo isto,/ Rasgar-me todo, abrir-me completamente...»; «Amo-vos carnivoramente,/ Pervertidamente...»; «Possuo-vos como a uma mulher bela...». Esta paixão quase erótica pelas máquinas e este entusiasmo pela civilização moderna assume aspectos de um certo masoquismo sádico, que inspira no sujeito poético sensações novas e violentas, experimentadas até ao histerismo: «Atirem-me para dentro das fornalhas! / Metam-me debaixo dos comboios! / Espanquem-me a bordo de navios! / Masoquismo através de maquinismos!».

Não é estranha, por isso, não só a tendência do sujeito poético para humanizar as máquinas («Forte espasmo retido dos maquinismos em fúria!»; «Grandes trópicos humanos de ferro e fogo e força...»), como também a tentativa de ele próprio se materializar, ou tornar-se parte delas: «Ah, poder exprimir-me todo como um motor se exprime! / Ser completo como uma máquina!»; «Rugindo, rangendo, ciciando, estrugindo, ferreando...».

 

A denúncia social

 

Convém registar ainda que a força e a agressividade do sujeito poético são permanentemente quebradas pela evocação irónica do reverso da medalha da civilização industrial: a desumanização («Progressos dos armamentos gloriosamente mortíferos!»; «...injustiças, violências...»), a hipocrisia e a futilidade («...ó grandes, banais, úteis, inúteis, / Ó coisas todas modernas...»), a corrupção, os escândalos políticos e financeiros («Orçamentos falsificados!»; «Deliciosos escândalos financeiros e diplomáticos...»), os falhanços da técnica («Eh-lá grandes desastres de comboios! / Eh-lá desabamentos de galerias de minas!»), a miséria e a devassidão das multidões («Maravilhosa gente humana que vive como cães, / Que está abaixo de todos os sistemas morais...»).

A aguda sensibilidade do sujeito poético revelada na denúncia do lado negativo e desumano da civilização moderna é uma atitude literária, em que a perfeição e a força das máquinas parecem ser, afinal, compensações para os seus próprios fracassos e para a sua inadaptação, que irão marcar a última fase poética de Álvaro de Campos.

 

Recursos expressivos

 

O estilo vagabundo, paradoxal e vertiginoso deste heterónimo traduz a expressão desmedida de sensações desmedidas. À convulsa avalanche do pensamento sensacionista, corresponde a vertigem de um estilo caudaloso, torrencial e aparentemente caótico. O poema constitui, por isso, uma ruptura com a lírica tradicional, como o confirmam os seguintes aspectos:

- a irregularidade estrófica, métrica e rimática, que resulta num ritmo irregular e nervoso;

- a presença de alguns desvios sintácticos («..fera para a beleza disto...»; «Por todos os meus nervos dissecados fora...»);

- a frequência das expressões exclamativas que sublinham a emoção do sujeito perante os fenómenos da vida moderna;

- as repetições, as enumerações e as onomatopeias que constituem um processo retórico aparentemente caótico que se destina a esgotar a expressão, num estilo torrencial, em catadupa;

- o recurso a palavras desprovidas de carga poética e de índole técnica;

 

As metáforas e as imagens deste texto evidenciam a íntima relação do sujeito poético com o mundo mecânico e industrial, permitindo até a sua plena integração na civilização moderna («E arde-me a cabeça...»; «...Natureza tropical...»; «Pervertidamente enroscando a minha vista...»; «Grandes trópicos humanos de ferro e fogo e força...»; «E há Platão e Virgílio dentro das máquinas e das luzes eléctricas...»);

 

As enumerações traduzem o frenético desejo do sujeito poético de sentir tudo de todas as maneiras, registando de forma aparentemente caótica as sensações que experimenta («Desta flora estupenda, negra, artificial e insaciável!»; «Eh, cimento armado, betão de cimento, novos processos!»).

 

As anáforas expressam a sucessão caótica dos fenómenos da civilização industrial, permitindo ao sujeito poético acompanhar o seu ritmo alucinante e vigoroso («Por todos os meus nervos (...) Por todas as papilas...»; «Poder ir na vida triunfante (...) Poder ao menos penetrar-me...»; «Ó coisas todas modernas, / Ó minhas contemporâneas...» );

 

Os neologismos («parte-agente»; «quase-silêncio») e os estrangeirismos («music-halls»; «Luna-Parks»; «rails») traduzem a ligação do sujeito poético às inovações da modernidade e à universalidade do progresso técnico, assim como o vocabulário de carácter técnico («motores»; «fornalhas»; «guindastes»; «êmbolos»);

 

A adjectivação traduz o excesso de sensações que dominam o sujeito perante a modernidade («flora estupenda, negra, artificial e insaciável»; «promíscua fúria»; «rodar férreo e cosmopolita»; «giro lúbrico e lento»; «quase-silêncio ciciante e monótono»);

 

Os advérbios de modo evidenciam a atracção erótica e carnal do sujeito pelas máquinas e pela modernidade («demasiadamente»; «carnivoramente»; «pervertidamente»); As interjeições confirmam o louvor do sujeito poético à civilização mecânica e a sua contínua agitação («Ó fábricas, ó laboratórios...»; «Eh-lá hô fachadas das grandes lojas!»; «Eia túneis...»; «Ah, poder exprimir-me...);

 

As onomatopeias sugerem a tentativa do sujeito poético de imitar os sons ruidosos das máquinas, exprimindo assim o barulho e a velocidade estonteantes da vida moderna («r-r-rr»; «Hup-lá, hup-lá, hup-lá-hô»; «z-z-z-z-z-z-z»);

 

As apóstrofes confirmam o estilo laudatório do poema e a exaltação da civilização industrial («Ó rodas, ó engrenagens...»; «Ó fazendas nas montras! Ó manequins!»), tal como as exclamações («Forte espasmo retido dos maquinismos em fúria!; «Ser completo como uma máquina!»).

 

 

FASE INTIMISTA

 

 

Não, não é cansaço...

 

Não, não é cansaço...

É uma quantidade de desilusão

Que se me entranha na espécie de pensar,

É um domingo às avessas

Do sentimento,

Um feriado passado no abismo...

 

Não, cansaço não é...

É eu estar existindo

E também o mundo,

Com tudo aquilo que contém,

Com tudo aquilo que nele se desdobra

E afinal é a mesma coisa variada em cópias iguais.

 

Não. Cansaço porquê?

É uma sensação abstracta

Da vida concreta –

Qualquer coisa como um grito

Por dar,

Qualquer coisa como uma angústia

Por sofrer,

Ou por sofrer completamente,

Ou por sofrer como...

Sim, ou por sofrer como...

Isso mesmo, como...

 

Como quê?...

Se soubesse, não haveria em mim este falso cansaço.

 

(Ai, cegos que cantam na rua,

Que formidável realejo

Que é a guitarra de um, e a viola do outro, e a voz dela!)

 

Porque oiço, vejo.

Confesso: é cansaço!...

 

                              Álvaro de Campos, in Poesias, Ed. Ática

 

 

Linhas temáticas

 

 

PERCURSO EMOCIONAL DO SUJEITO POÉTICO

 

 

Nesta composição lírica, sujeito poético afirma no primeiro verso que não é cansaço aquilo que sente, reiterando essa afirmação ao longo do poema. No entanto, e talvez um pouco paradoxalmente, refere que a desilusão se lhe “entranha na espécie de pensar”, sublinha a monotonia da vida (“é a mesma coisa variada em cópias iguais”), exprime a angústia perante o mistério e a indefinição que perpassam nesse “falso cansaço”; finalmente aceita que, “porque ouve e vê”, o estado em que se encontra é de cansaço: “Confesso: é cansaço!...” Assim, pode-se afirmar que, progressivamente, o sujeito poético se deixa dominar por uma letargia, um estado de cansaço e desistência, que o afasta do mundo.

 

RELAÇÃO ENTRE O SUJEITO, O MUNDO E OS OUTROS

 

 

Há entre o sujeito poético, os outros e o mundo um distanciamento, decorrente da incapacidade de relação; o único ponto comum é o facto de todos existirem: “É eu estar existindo/ E também o mundo”. Os outros, os “cegos que cantam na rua”, são apenas aqueles que o sujeito poético observa, mas com quem não se relaciona.

 

IMPORTÂNCIA SIMBÓLICA DOS PARÊNTESES

 

 

Do ponto de vista simbólico, os parênteses constituem um momento em que o sujeito poético abandona o tom reflexivo, se volta para o exterior e o vê como um “formidável realejo”. Os parênteses são como que um oásis num texto de características claramente negativas, uma vez que é o próprio sujeito poético que lhes confere uma conotação positiva. Simbolicamente, poder-se-ia afirmar que a felicidade só é possível para quem é “cego”, ou seja, para quem não vê a verdadeira realidade do mundo.

 

FASE POÉTICA

 

 

Este poema integra-se na fase abúlica de Álvaro de Campos, pelo que revela de incapacidade de viver a vida, pelo que transmite de tédio, de uma certa desistência perante o mundo e os outros. Nada motiva o sujeito poético, nada lhe interessa, tudo se resume a um “supremíssimo cansaço”.

 

 

Recursos expressivos

 

 

A primeira estrofe inicia-se com a repetição do advérbio de negação “não” empregue numa frase reticente, o que revela uma certa indefinição. O discurso assume um tom claramente metafórico (“…domingo às avessas/Do sentimento, /Um feriado passado no abismo...”), terminando a estrofe também com uma frase reticente. O conjunto destes recursos expressivos, aliado à repetição anafórica presente nos versos dois e quatro, traduz a tentativa de definir o estado de espírito que domina o sujeito poético.

publicado por esjapportugues12 às 10:56

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